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domingo, 4 de abril de 2021

 Com os meus votos de Boas Festas!

VIAGEM AOS FINAIS DOS ANOS 60 DO SÉCULO PASSADO

A PÁSCOA DA MINHA INFÂNCIA BEIRÃ (Pinho, São Pedro do Sul, Viseu)
A Semana Santa, assim mesmo, com maiúsculas, era, na minha infância, anos sessenta do século passado – convenhamos que já lá vão uns anitos! – uma semana de verdadeiro luto.
Na verdade, o catolicismo, embora o Estado fosse oficialmente laico, marcava profundamente toda a quaresma, ou não começasse ela logo com aquela pungente, realista, mas pouco simpática, advertência da Quarta Feira de Cinzas: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar!”, no ato da imposição das cinzas na testa de cada cristão. A igreja e seus ministros vestiam-se quase sempre de púrpura, a cor da dor, da paixão. Porém, era especialmente na Semana Santa que o recolhimento, a tristeza, a angústia, a roçar a morbidez, perdoem-me a expressão, colhia o seu máximo significado. Isto no país rural, pelo menos, que era aquele em que então me situava. Ele eram os jejuns e as abstinências das sextas-feiras; era o ritual da Via-Sacra, onde a paixão e morte de Cristo, por vezes, dramatizadas, era repetido vezes sem conta; era a confissão e respetiva comunhão obrigatória, conforme preceituava a Santa Madre Igreja…
Depois, eis que chegava o Domingo de Ramos, um momento divertido para a ganapada que se entretinha cada um a desafiar o outro, numa espécie de bullying, dir-se-ia, nos dias de hoje, a ver qual deles levava o ramo de loureiro ou de alecrim — noutras paragens prevalecia o de oliveira — mais robusto ou mais enfeitado com uns quantos papos-secos, um pacotinho de meia dúzia de bolachas maria, um ou outro rebuçado e, eventualmente, uma laranjita, tudo pendente das suas ramificações. Tão divertido que a verdadeira “floresta”, por sinal, bem aromática e enfeitada, em que o espaço da igreja se transformava, com o seu farfalhar, mal deixava ouvir o sacerdote, muito menos vê-lo. Mas era assim que, simbolicamente, se celebrava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, sob um coro de hossanas e ramos de palma e oliveira flutuando no ar, onde iria passar-se dos carretos e expulsar os vendilhões do templo.
Passadas essas pontuais emoções, guardava-se o loureiro bento junto à chaminé da lareira, para a eventualidade de ter de defumar a casa, em dias de trovoada, a fim de afastar os raios, e dava-se, então, início à Semana Santa, a última da quarentena ou Quaresma. As festas e romarias literalmente banidas durante os quarenta dias quase geravam, especialmente na juventude, um verdadeiro estado depressivo. Chegada a Quinta Feira Santa, as emissões de rádio quase se silenciavam. Suspendiam a emissão de música ligeira, por exemplo, passando a difundir quase exclusivamente noticiários e música de câmara. A igreja passava a ser o destino diário de católico que se prezasse, onde a liturgia invariavelmente versava sobre os últimos passos e padecimentos até à morte e crucificação de “Jesus Cristo feito Homem, à nossa imagem e semelhança, para nos redimir dos nossos pecados”. E assim se mantinham até às zero horas do Domingo de Páscoa, o domingo seguinte, momento que punha termo ao velório e em que o mundo cristão exultava de alegria, com foguetório e tudo, pela ressurreição do Filho do Homem, mas em que, paradoxalmente, só a mãe é conhecida.
Bom, mas o que me levou a escrever este arrazoado não teve propriamente a ver com os rituais religiosos, que valem o que valem, segundo a crença e a fé religiosa de cada um, mas com a mudança que se operava em nossas casas, ou melhor, nas casas dos nossos pais, humildes agricultores, como era o caso. Com efeito, como a Sexta Feira Santa era Dia Santo de Guarda, não se podia, ou antes, não se devia trabalhar; pelo menos, no campo, como era o meu caso. E convenhamos que nada tinha a ver com a falta de energias para tal, resultante do jejum e da abstinência da carne, o que, não havendo dinheiro para comprar peixe, tornava, obviamente, a alimentação menos calórica, menos nutritiva. Era por ser dia de luto profundo. E era um dia de descanso tão sagrado, tão intenso, que nem “os passarinhos buliam dentro das suas cascas”, diziam os antigos, os nossos maiores. Porém, tal princípio enfermava duma exceção: não se trabalhava no campo, trabalhava-se na casa. Na verdade, era dia de limpezas profundas, as tradicionais barrelas. Havia que preparar a casa para a visita pascal, para condignamente receber Cristo ressuscitado, no próximo domingo. Baldes e baldes de água e sabão rosa davam novo rosto aos soalhos de madeira, muitas vezes já carcomida pelo caruncho e encardida com aquele lixo incrustado que se foi acumulando ao longo dum ano inteiro. De joelhos, com aquelas duras escovas de piaçaba, era um trabalho bem árduo para quem tinha de o fazer, normalmente as mulheres da casa. Os homens iam-lhes chegando os baldes da água e iam fazendo outras tarefas domésticas como, por exemplo, cuidar dos animais, adiantar as refeições, ir ao monte apanhar rosmaninho para pôr na entrada da casa a servir de tapete à comitiva do compasso ou visita pascal… O certo é que aquele ar lavado, ligeiramente colorido e bem cheiroso conferido pelo sabão já ajudava a mitigar um pouco todo aquele estado psicológico pesado e sombrio de velório, prenunciando a alegria que iria brotar ao terceiro dia.
Entretanto, aproveitava-se também para fazer as barrelas especialmente com os lençóis de linho que, para o efeito, eram colocados a estagiar durante uns dias, dentro de grandes recipientes de cortiça, sob camadas de cinza, até serem retirados, lavados no tanque ou na água do ribeiro, e posteriormente postos a corar ao sol.
O dia de Páscoa começava com a obrigatória ida à igreja, cada um com a melhor indumentária de que dispusesse, eventualmente estreando até alguma peça, para assistir à celebração da missa, após o que se regressava a casa, preparando-se a mesa, no centro da sala, com uma toalha e um pratinho com meia dúzia de amêndoas e o envelope com a côngrua, a ser levantado pelo juiz da igreja ou pelo sacristão que habitualmente acompanhavam o pároco; o primeiro com a cruz e o segundo com a sineta a anunciar a chegada e a caldeirinha da água-benta com que o presbítero aspergia a casa, saudando e, entre aleluias, dando a boa nova da ressurreição aos presentes perfilados para beijar a dita com aquele pungente busto de Cristo pregado, quando, afinal, o que se vinha anunciar era a sua ressurreição.
Lá fora, numa qualquer encruzilhada do lugar, soavam cânticos alusivos ao momento, de que recordo aquele que começava assim: “Já os passarinhos cantam/A ressurreição do Senhor… Aleluia! “
E eu, ganapo, lá ia assistindo a tudo isto, com mais ou menos devoção, mas, confesso-o, muito mais interessado em me cruzar com os meus padrinhos de batismo, na expetativa de poder vir a receber de folar os 10 (1$00) ou 25 tostões (2$50), quando a generosidade falava mais alto, com que me brindavam, quando não era aquele bolo típico coberto de açúcar e bem saboroso que doceiras da Ponte, São Pedro do Sul, vendiam no adro da igreja, à saída da missa.
Ermesinde, véspera do dia de Páscoa de 2021
Miguel Henriques

domingo, 30 de agosto de 2015

OS NOSSOS HÓSPEDES

OS NOSSOS HÓSPEDES


Ninguém, por certo, ignorará que, durante muito tempo, se fizeram grandes obras (edifícios públicos) com recurso à mão-de-obra prisional. É certo que muitos dirão: «Bom, mas isso era trabalho escravo!» Seria?! - Pergunto eu.
Os reclusos estavam ocupados, uns exercitavam as suas profissões outros aprendiam-nas e, quando recuperassem a liberdade, já disporiam de uma capacidade de trabalho susceptível de os integrar na comunidade.
Além disso, produziam riqueza que, no mínimo, compensaria os gastos que o erário público tinha de suportar para os manter no cumprimento das suas penas privativas de liberdade. Mas, hoje, a mão-de-obra prisional. bem ou mal, é remunerada. E essa remuneração pode e deve ser mais um dos recursos, neste caso, económico, para a reinserção do indivíduo quando vier a recuperar a sua liberdade. Como é sabido, a pena de prisão não visa apenas uma função punitiva do delinquente, mas antes e sobretudo uma função ressocializadora, o prepará-lo para uma sã convivência com o seu semelhante, para que não volte a prevaricar. 
Ora, é sabido que no actual regime penal português, até o trabalho a favor da comunidade, em ambiente não prisional, mas no cumprimento de uma pena por parte de qualquer indivíduo condenado é facultativo, não lhe podendo ser imposto contra a sua vontade. 
E, assim sendo, uma vez que compete ao Estado assegurar a defesa da comunidade, quando, para isso, tiver de restringir o direito à liberdade a qualquer indivíduo, obviamente que terá de lhe assegurar os meios de sobrevivência, seja num estabelecimento prisional, seja no seu próprio domicílio.
Ora, sabendo nós o quanto custa a "hospedagem" de um recluso aos contribuintes, contribuintes esses já de si suficientemente depauperados pela crescente sobrecarga de impostos e, porventura, até lesados pelo próprio "hóspede", seja no regime de prisão preventiva, seja em cumprimento de pena, não seria sensato que o mesmo fosse obrigado a trabalhar para compensar o que com ele se gasta? 
Como é sabido, "a ociosidade é a mãe de todos os vícios", e o trabalhar é uma virtude que todos deveríamos cultivar, mesmo aqueles que,pessoal e socialmente, se pretende reabilitar.

terça-feira, 12 de maio de 2015

CORES, AROMAS, SONS E SABORES

CORES, AROMAS, SONS E SABORES



Chegou o mês de Maio e com ele o colorido das giestas amarelas, também conhecidas por “maias” e seu aroma típico, despontando aqui e além, bordejando e colorindo as rodovias, aqui mesmo, nos arredores da capital do norte, para onde me mudei de armas e bagagens, e por cá fiquei, há cerca de quatro décadas, proveniente do belíssimo recanto lafonense, o não menos belo e multifacetado concelho de São Pedro do Sul.

E só isto, de per si, já constituiria motivo mais do que suficiente para uma fuga ao bulício da cidade e procurar refrigério na paz da montanha, no sampedrense maciço montanhoso da serra da Gralheira, uma das que serviram de guardas ao meu berço, a par das da Lapa e do Caramulo, onde, por esta altura, a natureza se esmera obsequiando-nos com uma deliciosa ementa de cores, aromas e sons, servida com todo o requinte, numa toalha multicolor que se estende por quilómetros e quilómetros, a perder de vista.

Recantos e encantos que as selvas de betão em que as cidades se tornaram não comportam. Tudo natural, tudo belo, tudo maravilhoso!
 
Aqui, na cidade, não faltam gaivotas, pardais, rolas domésticas, andorinhas… mas faltam-me as rolas bravas, o cuco, o cantar do grilo, o coaxar das rãs, o zumbido das abelhas, o céu estrelado, o par do mocho, à noite… Sons da infância que a distância levou e que, não raras vezes, acordam numa imensa vaga de nostalgia que me acode. Falta-me aquela paleta de cores com que a Primavera pinta os nossos campos, as nossas montanhas. Falta-me o aroma dessa imensa variedade de flores campestres, dos seus néctares, o som dos insectos que as enxameiam...

Enfim, é uma pena que o dom da ubiquidade não seja, também, apanágio do comum dos mortais!

E, assim sendo, se quisermos ressaborear tudo isso, buscar essas fontes de deleite, teremos de sair da urbe, deixar esta selva de betão e demandar os campos, as montanhas, seus habitats de eleição.

Ora, foi para cumprir esse desiderato que, anteontem, Domingo, 10 de Maio, logo pela manhãzinha, nos levou a rumar ao maciço montanhoso da Serra da Gralheira, percorrendo-a desde a Freita ao S. Macário, fruindo dos seus maravilhosos recantos e encantos, do seu bucolismo em toda a sua beleza e esplendor.

O dia, aqui na região do Porto, acordou envolto numa neblina, desmentindo as auspiciosas previsões da meteorologia que apontavam para um dia de sol e de subida da temperatura do ar, condições ideais para o aprazado passeio e para os registos fotográficos que se pretendia. Talvez fosse passageira – pensámos –, há que arriscar, até porque a floração não dura sempre. Além do mais, estas neblinas matinais primaveris, di-lo a experiência, a maior parte das vezes circunscrevem-se a vales e zonas mais húmidas. Logo, seria muito provável que lá, nos picos da montanha, o céu estivesse limpo, como se desejava.

Mal iniciámos a subida da serra da Freita, de Chão de Ave para o Merujal, já o nevoeiro se dissipara. De lá do alto da Senhora da Lage, freguesia de Urrô, vislumbrava-se apenas ao longe alguns pequenos bancos de nevoeiro, nas zonas mais próximas do rio Douro. 




Com efeito, o dia estava óptimo para o passeio e havia que fruí-lo.

A primeira etapa teve como meta a famosa Cascata da Frecha da Mizarela, próximo de Albergaria da Serra, no rio Caima, um afluente do Vouga. 





Trata-se de uma queda de água com cerca de 75 metros de altura, em pleno planalto granítico da Serra da Freita, a cerca de 900 metros de altitude.

Logo ali a um passo, nas imediações do lugar da Castanheira, mais uma visita obrigatória ao raro fenómeno geológico, aliás, parece que único no mundo, que são as vulgarmente designadas “pedras parideiras”. 






Com efeito, trata-se pequenos nódulos de mica preta incrustados no granito e que por força da erosão deste, mais rápida do que a dos nódulos, faz com que estes acabem por ir permanecendo até se soltarem da “pedra-mãe”, a “parideira”, deixando em seu lugar pequenas concavidades.


A partir daqui, tirámos o azimute para terras sampedrenses e estabelecemos nova etapa até Manhouce, onde pretendíamos saborear a famosa vitela à moda da terra, já que ali chegaríamos a horas de almoço. 





Porém, vimos gorados os nossos intentos, já que, no que nos pareceu o restaurante mais moderno do lugar, nos foi dito que, ao Domingo, não se serviam refeições.

Bom, não havia “vitela à Manhouce”, mas talvez se conseguisse, na região, “vitela à Lafões”. 
E lá fomos até Campia, Vouzela, onde no bem conhecido Restaurante Sacristão, pejado de comensais, nos deliciámos com um excelente prato de vitela com batata assada em forno de lenha. Foram mais uns quilómetros fora da rota, mas valeu a pena.



E lá regressámos a Manhouce, para retomar a viagem rumo ao S. Macário. Atravessámos a aldeia da Coelheira, freguesia de Candal, São Pedro do Sul, em cujas imediações fomos surpreendidos por gado vacum à solta, a pastar, sem que alguém o guardasse, circulando livremente pela estrada, a fazer-nos lembrar a Peneda-Gerês. Razão tinha, creio que o poeta António Correia de Oliveira, quando disse que "Lafões é um pedaço de Minho perdido nas Beiras"!  

E lá fomos prosseguindo o nosso périplo pelo cume da montanha, pára aqui, pára acolá, para observação da natureza e as fotografias da praxe, e em marcha lenta para minimizar o impacto da nossa presença naquele éden, tentando reduzir ao mínimo as baixas na população apícola que, laboriosamente, se ocupava na recolha dos pólenes e néctares, troando os ares com o seu zumbido e que constantemente esbarrava contra o pára-brisas da nossa viatura.



























Perante tudo isto, uma enorme dúvida nos assaltou: qual será o impacto do movimento das gigantescas pás das enormíssimas torres eólicas na circulação das abelhas? Será que elas se conseguem furtar ao seu movimento? Bom seria que o conseguissem, mas…

E o sol ia declinando no horizonte. Urgia, pois, encetar o regresso a penates. Saciados de tanta beleza, de tantas cores, tantos aromas, tantos sons e alguns sabores, houve ainda tempo e ensejo para levar um abraço a uma amiga de infância, na freguesia de Sul, e para, juntos, passarmos um bom bocado em amena cavaqueira.


Porto, 12-05-2015

Miguel Henriques

sexta-feira, 10 de abril de 2015

SERÁ A CORRUPÇÃO UM CULTO?

SERÁ A CORRUPÇÃO UM CULTO?

A corrupção é sem dúvida um dos cancros do Estado de Direito, na medida em que viola desde logo o princípio da igualdade consagrado no art.º 13.º da Constituição da República Portuguesa, que reza o seguinte:

«Artigo 13.º
(Princípio da igualdade)
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.»

Com efeito, um Estado que não respeita este princípio não é – não pode ser! – seguramente, um Estado de Direito. Tratar os seus cidadãos de modo desigual, quer de forma arbitrária quer discriminatória, seja por que motivo for, atenta contra a Justiça que todos nós pretendemos seja o fim último deste emaranhado de normas que nos regem e que tecem o nosso ordenamento jurídico ao qual todos estamos subordinados, desde a lei fundamental ao mais simples regulamento.

Ora, como sabemos, o poder do Estado exerce-se através de três poderes fundamentais: o Legislativo, o Executivo e o Judicial.

Para o efeito, existem órgãos próprios, a quem compete o exercício desses poderes: a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais.

Órgãos esses constituídos por pessoas humanas, os designados funcionários públicos, a quem cabe, cada uma na sua esfera de competência, criar, cumprir e fazer cumprir as normas tidas por necessárias a uma sã convivência societária, ao desenvolvimento social, em suma, à felicidade de cada um de nós em sociedade que é, no fundo, o que todos buscamos nesta mais ou menos breve passagem por este mundo.

É esse poder de cada uma dessas pessoas a quem foi atribuído esse encargo ou função pública que deve ser exercido com plena isenção, tal como lhe é constitucional e legalmente exigido. Não o fazendo, está a subverter a norma e, como tal, a gerar injustiça, enfim, a pôr em crise o Estado de Direito.

E se ao nível das bases da administração pública já se torna doloroso ver que há expedientes nefastos (por exemplo, o funcionário da repartição que, a troco de uma qualquer vantagem patrimonial ou não, ou da simples promessa da mesma, deixa de cumprir os seus deveres, favorecendo o seu “amigo” em detrimento de terceiros), muito mais pernicioso se torna a situação quando tal ocorre no domínio dos seus quadros mais elevados, das próprias cúpulas. Na verdade, por vezes, parece demasiado óbvio que determinados indivíduos ali são colocados não para servirem a comunidade, mas para se servirem do cargo, autênticos oportunistas, tratando da sua vidinha e da do seu círculo de amigos, enquanto é tempo.

Chegámos a um estado tal que a corrupção parece ter-se tornado um culto, fazendo jus àquela velha máxima que diz que “quem tem amigos não morre na cadeia”, ou seja, o conceito de utilidade na base da noção de amigo. Assim, do género: «Tenho lá um amigo na repartição que me safa a coima; que me acelera o processo; que me desenrasca…».

Enfim, o tal amigo que me dá aquele jeito que não aconteceria se o não tivesse, facilitando-me as coisas, independentemente de para isso ter postergado os legítimos interesses de outrem.

E quando digo que parece ter-se tornado um culto não o faço por acaso. Na verdade, se bem repararmos e para quem, como eu, foi educado na religião católica, desde os bancos da catequese que nos habituámos a pedir a alguém para que interceda por nós junto do Pai, do Criador. São inúmeras as orações aos Santos, à Virgem, enfim, para que intercedam por nós. Isto para já não falar naquela troca de favores tão arreigada nos nossos crentes «se a Nossa Senhora me curar da minha doença, prometo-lhe que irei a Fátima a pé; se eu passar naquele exame, rezar-lhe-ei um terço, dando umas voltas à igreja…».

Enfim, somos todos filhos do mesmo Criador que se diz ser omnipotente, omnisciente e omnipresente; que como bom pai que é não discrimina os seus filhos, mas a verdade é que, por vezes, parece distraído e é preciso pedir a alguém da sua confiança e que sobre Ele possa exercer alguma influência, para que se não esqueça de nós, das nossas maleitas, da nossa felicidade e das dos nossos familiares e amigos.

É ou não isto tráfico de influências? E qualquer conduta desta natureza, entre os humanos, é tida como criminosa à luz da nossa lei criminal e, como tal, severamente punida.

Com efeito, aquela cunhazita parece estar sempre presente na nossa cultura religiosa e que depois se extrapola para a vida laica, como se tudo fosse normal, mas, na realidade, não o é, sendo, antes pelo contrário, extremamente pernicioso para o Estado de Direito e, por consequência, para a democracia que todos nós prezamos e almejamos.

Porto, 10-4-2015

Miguel Henriques

domingo, 2 de novembro de 2014

CRÓNICA DE UMA SAUDADE

CRÓNICA DE UMA SAUDADE

Faz hoje, 2 de Novembro de 2014, 35 anos.

Creio que por volta das 21 horas — já lá vai muito tempo e a memória desse tempo, como é natural, começa a esbater-se —, soou a campainha da porta do meu apartamento, um rés-do-chão sito na Rua de Jaca, Pedroso, Vila Nova de Gaia.

Na sala, e enquanto a minha mulher, enfermeira, a trabalhar no Hospital Eduardo Santos Silva, relativamente próximo de casa, não regressa do seu turno da tarde, vou-me ocupando com a filhota, uma bebé de oito meses, ao mesmo tempo que vou ouvindo música na rádio.

Pego na miúda ao colo e corro à porta, para ver quem era. Mal a abro, dou de caras com o colega da P.J., Ferreira Martins, e com a telefonista da mesma instituição, D. Ivone. Talvez ainda mais surpreendidos do que eu, pois não contavam comigo, e com um certo “ar de caso”, como se costuma dizer por estas bandas, disparam, de rajada, um «Olá! Onde é que mora o Garcia?»

— Mora aqui no andar de cima. Porquê? Aconteceu alguma coisa? — indaguei, perante aqueles olhares meio esgazeados.

— Infelizmente, aconteceu. Acaba de morrer num acidente de viação e precisamos de dar a notícia à viúva.

Bom, não sou pessoa de desmaio fácil, senão por certo teria desfalecido e deixado cair a bebé, tal o impacto que tal notícia, assim disparada a frio, em mim causou. Por certo, aos mensageiros daquela desgraça não terá passado pela cabeça que o Garcia era para mim, à data, para além de colega, provavelmente o meu melhor amigo.

Conhecemo-nos no curso de agentes da P.J., cerca de três anos antes, e cedo nos tornámos amigos, ao ponto de ambos termos comprado cada um o seu apartamento, no mesmo edifício e sensivelmente pela mesma altura, havia pouco mais de seis meses. A partir daí, as nossas famílias passaram a visitar-se quase diariamente, ora na casa dum ora na do outro. E como a então minha mulher trabalhava por turnos e acontecia eu estar frequentemente sozinho com a minha filha, era convidado a passar o serão com o casal Garcia que, por essa altura, tinha também uma menina de tenra idade, a Marta Isabel, cerca de um ano mais velha do que a minha. Foi, aliás, no convívio quase diário com a sua menina que fiz o meu estágio de pai, por assim dizer.

Como estávamos em princípio de vida profissional e a começar a construção de um lar a expensas próprias, já com encargos financeiros apreciáveis face aos parcos proventos do trabalho, a austeridade havia-se instalado comigo lá em casa, pelo que não dispunha de automóvel, nem sequer de telefone. Os telemóveis ainda não tinham feito a sua aparição.

— Não te preocupes, Miguel, quando quiseres telefonar, tens o meu telefone, que já mandei instalar. E se, numa qualquer emergência, precisares de viatura, tens ali o meu carro! — sentenciou o Garcia, em mais um alarde da sua generosidade.

Na ocasião, para além da sua colocação na secção de homicídios, ele fazia uma perninha no recém-criado gabinete de imprensa, onde se ocupava a recolher e tratar o noticiário de cariz policial constante dos jornais diários. E como jornais era coisa que havia de sobra naquele gabinete, ele aproveitava para trazer consigo um qualquer diário que fazia o obséquio de me meter na caixa do correio, caso chegasse a casa primeiro do que eu.

Por essa altura, “os homicídios” investigavam o assassinato dum conhecido industrial, ocorrido em circunstâncias que apontavam para uma eventual execução levada a cabo por alguém relacionado com um grupo político contra-revolucionário de que ele fazia ou teria feito parte. Estávamos nos primeiros anos pós-Revolução dos Cravos, convém, a propósito, lembrar.

A verdade é que no regresso de mais uma dessas diligências, ao fim do dia, na localidade de Vila Garcia, arredores da cidade de Viseu, quando conduzia uma viatura em que viajava com um colega mais antigo, colidiu de frente com outra viatura que circulava fora de mão, causando-lhe a morte quase imediata.

Voltando ao fatídico dia e, mais precisamente, ao momento do conhecimento do seu trágico falecimento, devo dizer que fiquei de tal forma abalado que resolvi pedir ajuda a um outro vizinho e amigo comum, para que nos acompanhasse na comunicação à viúva. Como fazê-lo? Ser directo? Não, seria demasiado violento. Decidimos, então, que o melhor seria relatar o acidente, com a informação de que estava gravemente ferido no hospital de Viseu, para onde foram conduzidos os sinistrados.

Abeirámo-nos da porta e toquei a campainha. A Olga, assim se chamava a esposa, abre a porta e, ao dar de caras comigo:

— Ah! És tu, Miguel, julguei que fosse o António Manuel! Estou à espera dele para jantar.

Apresentei-lhe os colegas e pedi licença para entrarmos, pois trazíamos notícias dele.

— Infelizmente, não são as melhores, Olga — consegui, a custo, adiantar.

Ao reparar nos nossos olhos humedecidos e no semblante carregado, a Olga recusou-se a acreditar que o marido estivesse simplesmente ferido.

— Leva-me lá, Miguel, por favor! Quero vê-lo! Pega no meu carro e leva-me lá!

Entretanto, a então minha mulher acabava de chegar do trabalho e juntamente com uma outra vizinha e amiga, também comum, começaram a procurar no guarda-fatos do casal uma roupa para vestir o cadáver. Enquanto isso, eu ia-me ocupando a tentar reconfortar a Olga, mantendo-a na sala, para que se não apercebesse do que as amigas faziam, já que, entretanto, tinham acabado de chegar mais uns colegas dispostos a prestar apoio, disponibilizando-se a levar a roupa para o hospital de Viseu.

Ora se até ao momento ainda fora possível disfarçar a situação, a partir da chegada desses colegas, de gravata preta e olhos humedecidos, o mistério acabou e a Olga ficou, definitivamente, a saber que acabara de perder o seu António Manuel.

Confesso que foi a primeira vez que experimentei a dolorosa sensação de perder um amigo, um verdadeiro AMIGO. Tão dolorosa que, ainda hoje, volvidos estes 35 anos, continua a doer. E porque a dor me pedia um desabafo, fi-lo, então, para o papel.



À MEMÓRIA DO MEU GRANDE AMIGO GARCIA

Bom companheiro de toda a hora,
                        Amigo sempre sincero e leal,
                        Partiste, dando-me surpresa tal
                        Que, saudosa, a minha alma chora!


                        Contigo privava de perto, agora,
                        Já não encontro presença igual:
                        Sempre alegre, bem-disposto... Afinal,
                        Para os bons é curta a demora!


                        Tão breve sonho foi a tua vida,
                        Deixando em mil pedaços partida
                        A alma de quem te queria bem...


                        Que a tua mensagem seja vivida,
                        A tua imagem jamais esquecida
                        E que descanses, em paz, no Além!


Em nome e por sugestão dos colegas de curso, coube-me a honra de produzir a quadra aposta na lápide colocada a assinalar a sua campa, no cemitério da sua terra natal, Pombal de Ansiães, Carrazeda de Ansiães:

Na surpresa da partida,
Nem um abraço te demos.
Numa saudade incontida,
Jamais te esqueceremos.


NOTÍCIA DO ACIDENTE PUBLICADA NO DIA SEGUINTE, NO JORNAL DE NOTÍCIAS




Comigo, religiosamente, guardo as únicas duas fotografias do nosso convívio, na tua curta passagem por este mundo.


(No baptizado da minha filha, levando a sua filhota Marta Isabel ao colo)



(Na praia, com a esposa, Olga, a sua sobrinha Cristina e a filhota Marta Isabel, junto a mim)



Mais uma vez, companheiro e amigo António Manuel Garcia, obrigado pela tua amizade.
Um abraço. Até sempre!

P.S.:
Beijinhos para as minhas queridas amigas Olga e Marta Isabel

Porto, 2 de Novembro de 2014


Miguel Henriques