Translate
Mostrar mensagens com a etiqueta OPINIÃO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta OPINIÃO. Mostrar todas as mensagens
domingo, 14 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 23 de maio de 2014
AFINAL, QUE CIVILIZAÇÃO É ESTA?
(Igreja Paroquial de Valongo dos Azeites)
AFINAL, QUE CIVILIZAÇÃO É ESTA?
Por motivos
de ordem familiar, tive necessidade de me deslocar, no passado dia 2 de Maio do
ano em curso, do Porto a Valongo dos Azeites, em São João da Pesqueira, e ali
permanecer durante algumas horas.
Em boa
verdade, convenhamos que é sempre um passeio aliciante, este que é feito pelas terras
durienses, em qualquer época do ano. Mas na Primavera e no Outono, então, é uma
autêntica maravilha, um deslumbramento, o podermos contemplar a forma e o colorido
daqueles vinhedos magníficos ornamentando as encostas do Douro.
Mas se a
natureza tem o condão de nos surpreender pela positiva, com quadros destes, magníficos,
verdadeiramente idílicos, dum bucolismo estonteante, um autêntico deleite para
a alma, já a comunidade humana – ou melhor, algumas das pessoas que a compõem –
me surpreendeu pela negativa. Com imenso pesar o digo, acreditem!
E isto a
propósito dos factos que, havia cerca de duas semanas, abalaram aquela pacata
localidade do interior rural, perpetrados pelo cidadão Manuel Baltazar, mais
conhecido por “Palito”, e que conduziram à morte da sua ex-sogra e duma irmã desta,
bem como à tentativa de assassinato da sua ex-mulher e da própria filha de
ambos. Tudo isto na sequência de disparos com arma de fogo, uma caçadeira, e
utilizando cartuchos carregados de zagalotes como munição, própria para
caça-grossa. Disparos esses que constituíram o culminar de ameaças reiteradas
de há alguns anos a esta parte, e que, ao que por ali consta, teriam como alvo
um universo ainda mais vasto, mantendo, por isso, em sobressalto alguns dos habitantes
daquela localidade.
De referir
que tal indivíduo, recentemente divorciado, manteria uma obsessão mórbida pela
ex-esposa a quem teria infligido maus-tratos diversos ainda durante a vida em comum,
para além de a perseguir sistematicamente, ao ponto de ter sido proibido pelo
tribunal de se aproximar da mesma, estando por isso vigiado remotamente pelo
Instituto de Reinserção Social, através do mecanismo vulgarmente designado por “pulseira
electrónica”.
Mecanismo
este que se não mostrou suficientemente eficaz para impedir a aproximação, e
daí a tragédia.
Com efeito,
foi-me dado observar “in loco” o aparato de elementos da GNR montados a cavalo,
patrulhando as ruas da localidade e a montanha à sua volta, no intuito, presumo
eu, de proporcionar alguma segurança àquela comunidade, impedindo, pelo menos,
o homicida de ali entrar e cumprir a ameaça que pairava sobre alguns residentes
constantes duma lista que ele elaborara e que teriam, de alguma forma,
testemunhado a favor da ex-esposa no processo de divórcio e nos de ofensas
corporais (violência doméstica) de que ela havia sido vítima e contra ele
intentara. Para além destes, também os investigadores da Polícia Judiciária se
iam desdobrando em contactos com os locais, no sentido de irem recolhendo
informação que lhes permitisse chegar ao suspeito. Posso afirmá-lo, porque os
vi, nesse labor.
Obviamente
que, com o homicida a monte e todo aquele aparato policial, o tema das
conversas desembocava inevitavelmente na fuga do “Palito” e no tempo que a mesma
já levava, sem que as autoridades lhe tivessem conseguido deitar a mão.
«Cá para mim, já deve estar morto, por aí,
nalgum recanto da montanha» – alvitrava um, secundado por mais uns quantos.
«Hum! Não, o que eu acho é que alguém o deve estar
a ajudar, fornecendo-lhe comida e roupa! Ele tem muitos amigos por aí,
especialmente caçadores que com ele iam à caça» – argumentavam outros.
«Olhem, ele a mim não me fez mal nenhum,
portanto, nada tenho contra ele! Aliás, ele até nem é má pessoa, ajudou a criar
uns irmãos. Tem é aquela fixação pela mulher, o que é que se há-de fazer! Se
elas lhe faziam a vida negra, olha, ele resolveu de vez o assunto» – atirou
um terceiro, mostrando-se profundo conhecedor do quotidiano do suspeito e suas
vítimas.
Entretanto,
no meio deste colóquio, eis que surge uma jovem senhora, completamente
descontextualizada daquela filosofia que, cheia de coragem, lá arriscou: «Não, quanto a mim, acho que ele deve pagar
pelo que fez! Tem de prestar contas à justiça! Aquilo não é coisa que se faça:
matar, assim, as mulheres… até a própria filha... só a não matou porque não calhou! E sabe-se lá
se não irá matar ainda mais alguém?! Aquelas pessoas que testemunharam em
tribunal contra ele, em defesa da mulher, andam por aí cheiinhas de medo que
ele lhes apareça pela frente! Tenham lá paciência, mas não, não é justo o que
ele fez!»
Entretanto,
no passado dia 21 de Maio, transcorrido mais de um mês sobre a data dos factos,
o suspeito veio a ser detido pela Polícia Judiciária e apresentado, no dia
seguinte, ao Juiz de Instrução Criminal competente, o de São João da Pesqueira,
que lhe decretou, como medida de coacção, a prisão preventiva.
Bem, o que se
passou à porta daquele tribunal, aquando da sua chegada, deixou-me, a mim e a
muita gente que ainda tem alguma noção dos valores em sociedade e que ainda os
vai cultivando, completamente boquiabertos, diria mesmo que, literalmente
estarrecidos.
Não é que a
maioria dos presentes, e contavam-se algumas dezenas, desatou a bater palmas,
aplaudindo o suspeito, como se de um herói se tratasse! Alguns que até nem se
coibiram de falar para a imprensa, manifestando compaixão para com o indivíduo,
como se o mal que fizera tivesse sido o ter pisado inadvertidamente um ninho de
lagartas!
E as vítimas?
As que foram mortas ou gravemente feridas, com sequelas físicas e psicológicas
para o resto das suas vidas?! E as que viveram todo este tempo em sobressalto,
sob ameaça do mesmo indivíduo, apenas porque foram solidárias para com alguém
que por ele vinha sendo publicamente maltratado e oprimido?! Essas não merecem
uma palavra de solidariedade?!
Poderá ter-se
esta gente como gente civilizada?
Afinal, que
civilização é esta?
Ermesinde,
23-05-2014
Miguel
Henriques
Etiquetas:
OPINIÃO
Local:
Porto, Portugal
domingo, 16 de fevereiro de 2014
A SÍNDROME DAS PRAXES
A
SÍNDROME DAS PRAXES
Ao
longo da minha vida, e já lá vão uns bons pares de anos, tive a oportunidade de
conviver com muita gente. Desde os bancos da escola, passando pelo serviço
militar, até ao tempo em que exerci a minha actividade profissional, fui deparando sempre, aqui e além, com um ou outro engraçadinho que sempre sentiu
um prazer enorme em puxar dos galões – se os tinha, e, se os não tinha,
inventava-os! –, para humilhar o seu semelhante, quer se tratasse de meras “brincadeiras”
aparentemente inócuas quer em situações que envolviam já alguma gravidade, até
do ponto de vista hierárquico.
A
verdade é que, como denominador comum, e não sendo eu propriamente psicólogo, sempre
descortinei neles um qualquer handicap traduzido na existência de uma qualquer lacuna
na formação da respectiva personalidade. Fosse por se sentirem menos cultos,
menos inteligentes, menos capazes, física e mentalmente, enfim… A verdade é que
sempre se valiam de um qualquer ascendente para afirmarem a sua “superioridade”,
recorrendo a expedientes, qual deles o mais iníquo para achincalhar o outro,
como forma de disfarçarem as suas limitações intrínsecas, os seus próprios
complexos.
Trata-se,
pois, a meu ver, de gente com personalidade malformada ou, se preferirem,
deformada. Personalidade que, a seu tempo, deveria ter sido construída de
dentro para fora, assente e consolidada em valores morais, intelectuais, culturais,
aqueles que realmente estruturam um verdadeiro ser humano cujo respeito se
impõe de per si, sem mais artifícios ou teatralizações. Uma personalidade íntegra,
bem formada, não carece de máscara, nem de atropelar ninguém para se dar ao
respeito. O respeito merece-se, não se impõe; conquista-se pelo mérito, pela
virtude, não pela violência, seja ela de que natureza for. Ao invés, esses
indivíduos, reconhecendo as suas próprias limitações, tentam afirmar-se de fora
para dentro, através da sua imposição, mais ou menos cínica e, por vezes, brutal,
aos outros.
Com
efeito, trata-se de personalidades de fachada, perversas e perigosas, diria
mesmo que albergando um certo potencial criminoso, pois não enjeitarão nunca o
ensejo de, face a uma qualquer debilidade detectada no seu semelhante, o
humilharem, quiçá causando-lhe estigmas que o acompanharão para o resto da vida,
quando não a põem mesmo em risco, como, infelizmente, já tem acontecido.
Porto,
16-02-2014
(Miguel
Henriques)
Etiquetas:
OPINIÃO
Local:
Porto, Portugal
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
AS PRAXES
AS
PRAXES
Muito
se tem escrito e falado, ultimamente, sobre as praxes académicas, especialmente
porque de algumas delas têm resultado consequências nefastas para a vida, integridade
física, psicológica e moral dos que a elas são sujeitos, culminando no trágico desaparecimento
recente de seis alunos da Universidade Lusófona, nas águas revoltas da praia do
Meco, em Setúbal.
A
questão é polémica e, como tal, susceptível de opiniões diversas e até
divergentes, ou não fôssemos todos nós seres diferentes, com personalidades e
sensibilidades muito peculiares, para já não falar da diferente forma de encararmos
o nosso relacionamento com os outros.
A
praxe académica, segundo os seus defensores, serve para integrar os caloiros no
meio estudantil. Significa isto que, sem ela, não vão eles sentir-se marginalizados
e verem condenados ao fracasso os seus esforços e os dos seus pais ou de quem
quer que lhes pague a formação, no sentido de se habilitarem com um diploma
que, suposta e legitimamente, uns anos mais tarde, lhes possa facultar a abertura
das portas para a realização do seu sonho profissional!
Cada
um é como é e até aceito que aqueles cuja mentalidade está formatada para uma
espécie de sobrevivência grupal não consigam ser nada nem ninguém fora do grupo
e tenham uma necessidade absoluta dessa integração. Sinceramente, nunca precisei
de grupo nenhum para sobreviver, nem para me afirmar académica e
profissionalmente. Aliás, devo confessar que a minha experiência de trabalhos escolares
em grupo é péssima, já que sempre fui eu a ter de o fazer e pronto.
Na
verdade, durante o tempo em que frequentei a Universidade, eu não tinha tempo
nem sequer para me coçar, como soe dizer-se, quanto mais para andar nas praxes!
A minha preocupação sempre foi, essa sim, aproveitar todo o tempo que me sobrava
do exercício da minha profissão, para o dedicar ao estudo, devorando, a esmo,
manuais, sebentas e apontamentos obtidos junto de outros colegas, para que não viesse
a ser mais um dux, “honraria” que sempre dispensei. Tempo esse que roubei à família,
aos amigos e ao meu próprio lazer.
Os
meus “ídolos” sempre foram aqueles que conseguiram acabar o curso no seu tempo curricular
normal e não aqueles que por lá se iam arrastando, ano após ano, ocupando vagas
que muita falta faziam a outros que, por as verem ocupadas, não puderam
ingressar na Faculdade dos seus sonhos e, quiçá, torrando nessas borgas o
dinheiro que, sabe-se lá com que custo, os seus pais iam retirando ao seu
próprio conforto, para lhes proporcionarem um modo de vida, se possível, mais confortável do que a deles.
Mas,
cada um é como é, e lá sabe a consideração em que tem a “sua” escala de
valores. Aquilo que para mim seria um estigma, o ser dux, para outros parece ser um estatuto, uma honraria. Enfim,
pontos de vista!
Só
que, infelizmente, as praxes não se têm limitado a um mero folclore académico
com eventual prejuízo para o estudo. Têm-se tornado o local e o momento propício
para a prática das maiores perversidades, uma espécie de sublimação de maus
instintos, para aqueles que sentem necessidade de se afirmar através da
humilhação dos outros.
É
certo que me dirão: «Bom, mas há gostos para tudo! Não há quem goste de
sadomasoquismo?!»
Então,
que não se excluam nem se estigmatizem aqueles que se recusam a participar
nesses deprimentes rituais. Participa quem quer, sujeita-se às humilhações quem
gosta, mas que não o façam em espaços públicos. Sim, porque não me parece que se
trate apenas de uma questão de disponibilidade de direitos do foro particular.
Há, obviamente, outros valores que se lhe sobrepõem e que julgo supérfluo estar
aqui a enumerar.
Aflige-me
assistir à humilhação de quem quer que seja, ao atentar contra a sua dignidade,
seja de que forma e por que meio for, na escola, na universidade, na tropa, no novo
emprego… ainda que, no final, e com muitos sorrisos, receba umas palmadinhas
nas costas com o inerente pedido de desculpas, a pretexto de que tudo aquilo
não passara, afinal, de uma simples brincadeira.
Expor
ao ridículo quem quer que seja, só porque acaba de chegar, não é uma atitude
que dignifique quem a pratica nem quem a ela se sujeita, ainda que mais ou
menos voluntariamente. Hospitalidade ou arte de bem receber é outra coisa completamente oposta.
Porto,
28-01-2014
Miguel
Henriques
Etiquetas:
OPINIÃO
Local:
Porto, Portugal
Subscrever:
Mensagens (Atom)

