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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

VIRTUAL VS REAL






Virtual vs Real,
                                por Miguel Henriques


Aqueles últimos dias haviam-nos passado ambos tomados por uma tão estranha quão doce ansiedade. O desejo de se poderem mirar olhos nos olhos, de se tocarem, de sentirem aquele toque de pele que faz vibrar de emoção qualquer coração minimamente apaixonado, de conhecerem o tom das suas vozes, segredo que deliberadamente foram reservando para aquele encontro ao vivo, de conhecerem o cheiro recíproco, enfim, tudo isto lhes vinha tirando literalmente o sono. E aquela persistente curiosidade, que não cessava de lhes minar a mente, sobre qual seria a reacção do outro ao cruzarem os seus olhares pela primeira vez, então é que, qual bola de neve, não parava de lhes potenciar a ansiedade. Iriam enrubescer, ficar completamente apáticos, ao ponto de as palavras lhes ficarem entaladas na garganta ressequida pelo nervosismo, ou, pelo contrário, tudo fluiria com a química naturalidade de duas almas gémeas que, pese embora ansiosas, há muito anseiam por restabelecer a sua originária unicidade?
Conheceram-se pela net, sem câmara, nas pontas dos dedos que diariamente acariciavam o teclado como se do rosto do outro se tratasse. Apenas uma fotografia supostamente actualizada de cada um, a utilizada no perfil da sua página na rede social, descarregada para o ambiente de trabalho, lhes servia de refrigério para as suas angústias e emoções, já que o recurso ao telefone foi, desde o início, espontânea e intencionalmente posto de parte por ambos. Era essa foto bem exposta e ampliada no ecrã, cujo sorriso contagiante tocava indelevelmente o outro, que imprimia o cunho e o ritmo das conversas que iam fluindo pelos dedos recíprocos no matraquear dos teclados. E a verdade é que, nessa estática virtualidade, o sonho se coloria e enfunava à medida que os dias iam passando.
Com efeito, as perguntas eram mais do que muitas, e o momento tão almejado parecia nunca mais chegar, como se a sua ansiedade tivesse de escalar aquele íngreme calendário que parecia ter parado no tempo, travado por um qualquer génio do mal, avesso ao amor.
Eis que, finalmente, esse dia chegou. Luana, no sentido de se sentir mais segura e confortável, havia convidado uma amiga para a acompanhar naquela que já vinha considerando a mais fascinante aventura da sua vida, pese embora isso fosse um segredo que apenas para si guardara. Uma amiga a quem, conhecendo-a há muito, não passou despercebido o estranho nervosismo que de si se apoderara, mas que soubera conter a curiosidade, esperando para ver, pois a amizade não pode ser beliscada pelo simples facto de cada um pretender guardar exclusivamente para si um simples núcleo de privacidade. O rosto, os olhos, as incontornáveis janelas do edifício humano, raramente conseguem esconder o que nos vai no coração… e na alma. No entanto, não quis estragar o momento da amiga com perguntas inoportunas ou menos pertinentes que pudessem denunciar uma qualquer tentativa de devassa de um possível segredo íntimo que aquela eventualmente guardasse e quisesse reservar para si e para os seus botões.
Enquanto isso, Mel Igu, personagem principal no evento que iria ter lugar, aguardava, nervosamente, no exterior do auditório, a aparição daquela que nos últimos tempos lhe vinha tomando conta de todos os seus instantes, absorvendo por completo os seus pensamentos, dominando integralmente as suas emoções. Desde o dia em que pela primeira vez, no silêncio dos seus aposentos, os seus dedos cúmplices trocaram declarações de amor recíproco, os dias haviam passado a ser bons ou maus conforme o estado de humor do seu relacionamento. Aquele constante correr para o computador, na expectativa de “encontrar” o outro, para com ele compartilhar o seu dia-a-dia, tornara-se já não só uma simples rotina, mas uma necessidade premente para o anímico bem-estar de qualquer deles. Um dia-a-dia partilhado nas pontas dos dedos, sem imagem nem som, apenas o do estrepitoso bater do teclado ao ritmo das emoções.
Escassos minutos antes da hora aprazada para o início do evento, numa altura em que os olhos ansiosos de Mel Igu varriam o horizonte, eis que vislumbra Luana a aproximar-se, passo estugado, mas seguro, acompanhada pela amiga, também esta uma velha amiga e conhecida daquele, mas que já não via desde a infância. Escusado será dizer que os olhares de Luana e Mel Igu, emoldurados por um lindo e enternecedor sorriso, ficaram presos um no outro, como que por hipnose, até ao momento em que os seus rostos se tocaram pela primeira vez, naquele ósculo bilateral, delicado, elegante, momento em que pareceu terem-se fechado para saborearem até à exaustão toda a magia do encontro. Só a aproximação da amiga para o cumprimento da praxe teve o condão de quebrar aquele encanto, a que, por cortesia, ele teve de anuir. Mas a hora da conferência aproximava-se e, noblesse oblige, a plateia, bem como a pontualidade que sempre fora apanágio do orador, reclamavam a sua presença imediata, pelo que só no final do evento poderiam dar sequência àquele desfilar de emoções que os assaltara.
Encerrada a sessão, eram horas de jantar, e nada melhor do que uma refeição a dois, em torno duma mesa, num recatado restaurante das redondezas, onde os olhares alheios não pudessem quebrar ou sequer perturbar o encanto do momento.
- Adorei aquela tua dissertação, Mel Igu, sobre o amor conjugal e toda a problemática que os anos de casamento acarretam para a convivência pacífica e harmoniosa do casal!
- Obrigado, Luana! Como referi e toda a gente sabe, na vida do casal, nem tudo são rosas. É natural que, mais cedo ou mais tarde, vá surgindo alguma conflitualidade. A questão está em saber, ser capaz de avaliar aquilo por que vale a pena lutar, aquilo que é viável e pode contribuir para a saudável estabilização e consolidação dos afectos, e aquilo que, a manter-se, apenas vai contribuindo para o desgaste da relação e dos seus protagonistas, aumentando a sua inevitável conflitualidade no palco da tragédia conjugal. E, em face disso, como é óbvio, há um momento em que ambos têm de reflectir e, se necessário for, dar um murro na mesa, dizer basta, partindo para outra, como se costuma dizer, sem pudores nem preconceitos, sejam eles de que natureza forem. A vida, em meu entender, deve celebrar o amor!
- És um hedonista, Mel Igu, já deu para perceber!
- Não tenhas dúvidas, Luana! Para mim, a vida só faz sentido enquanto ela nos conseguir proporcionar algum prazer. A dor, o sofrimento, a doença, são meros degraus na íngreme escadaria, mais ou menos longa, que desce para a morte. É a natureza das coisas a ditar o seu curso! Tudo o que o Homem tem feito é contrariá-la com recurso à medicina e a outros ramos da ciência. E, como disse, quer na saúde física, quer na psíquica ou sentimental, quando a felicidade, o prazer, passaram a ser meras miragens, insistir na caminhada não é mais do que prolongar a agonia.
- Bom, mudemos de assunto! E que tal brindarmos ao nosso encontro? Ou será que é reencontro?!
- Seja aquilo que for, Luana, o que importa é que estejamos assim, bem juntinhos, de olhos nos olhos, frente a frente, mãos firmes e dedos solidamente entrelaçados nos braços estendidos sobre a mesa. Brindemos!
- Que lindo! – retorquiu Luana, embevecida – Brindemos!
E o brinde foi selado com um longo beijo, um beijo com sabor, um sabor real, sentido no entrecruzar das línguas sôfregas. O mundo fechou-se em seu redor, naquele abraço absorvente que teve o condão de lhes incendiar a libido. As palavras saíram de cena, dando lugar aos sentidos, os dedos abandonaram a solidão do teclado, para se ocuparem com coisas bem mais reais e deliciosas. O virtual acabara de representar o seu papel.
- O toque, Mel Igu! Como eu sentia falta disto! Nada pode suprir a falta do outro, quando o amor os une e nele se plasmam todos os seus sonhos e emoções. Nenhuma virtualidade, por mais cor-de-rosa que se pinte, nos preenche tanto como um simples entrelaçar dos dedos!
- Aproveitemos o momento, Luana! Que ele venha a ser a sementeira afável e generosa que, no futuro, nos venha a proporcionar o melhor dos frutos, para que, se possível, de mãos dadas, neste enlevo, consigamos sulcar a vida reduzindo ao mínimo os escolhos que pelo caminho nos forem surgindo.
E de novo se ergueram os copos: «chim-chim!»
- À nossa! – proclamaram ambos, em uníssono.



(In “A Arte Pela Escrita Oito – Coletânea de Prosa e Poesia”, organização e edição do sítio Escritartes e Mosaico de Palavras Editora, 2015, Porto, pág. 323 a 326)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

COLETÂNEA VALONGO 180 ANOS DE MEMÓRIAS



COLETÂNEA  VALONGO 180 ANOS DE MEMÓRIAS

     Decorreu no passado dia 15 de julho, pelas 21.30 horas, no Parque Urbano da Cidade de Ermesinde e no âmbito da Feira do Livro e das Artes de Valongo 2017, o lançamento da coletânea VALONGO 180 ANOS DE MEMÓRIAS, obra evocativa dos 180 anos da criação do concelho de Valongo. 

     Esta iniciativa, promovida pela autarquia valonguense, teve a colaboração da Associação Cuca Macuca, sendo que a obra é exclusivamente integrada por trabalhos de autores residentes no concelho de Valongo.

      Convidado para o efeito, nela participei com o conto ficcional O ENIGMA DAS PEDRAS GRAVADAS, que poderá ser lido infra.



(Momento da entrega de um exemplar da obra a cada um dos autores, entrega essa efetuada pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Valongo, Dr. José Manuel Ribeiro)



O ENIGMA DAS PEDRAS GRAVADAS

Florinda, uma jovem tecedeira de São Martinho do Campo, Valongo, a pisar os 20 anos, ficara um tanto ou quanto intrigada, ao deparar, logo pela manhãzinha, com uma pequena placa de lousa dependurada por um pedaço de arame a fazer de argola, na aldraba da porta de casa que dava para a rua. Um olhar um pouco mais atento deu para perceber que aquele caraterístico fundo preto da pedra continha, realçada a branco, a letra “A”. Olhou em redor, mas não vislumbrou ninguém. Pegou naquele misterioso pedaço de ardósia, de forma triangular, com sinais de ter sido cuidadosamente talhada por hábeis mãos humanas, e guardou-o numa das gavetas do guarda-louça da cozinha. Embora tivesse grande dificuldade quer na escrita quer na leitura, pois não a haviam deixado frequentar a escola o tempo suficiente, sempre se ia desenrascando naquilo que achava ser o quanto bastava para se fazer entender. Na verdade, os campos de linho das margens do rio Ferreira, que passava ali perto, constituíam matéria-prima mais do que suficiente para a ocupar, a si e à sua mãe, o tempo todo, tendo em vista satisfazer as encomendas que não cessavam de chegar ao velho tear da sua progenitora. Além do mais, o período crítico que o país atravessava, minado pela 2.ª Guerra Mundial ainda em curso, a fome, os racionamentos de tudo e mais alguma coisa, obrigavam a população a um esforço acrescido, no sentido de obviar às necessidades básicas dos lares. Daí que cedo tivesse sido arrancada aos bancos da escola. As exigências da vida e do trabalho, segundo os pais, reclamavam a sua contribuição para a economia doméstica.
No dia seguinte, novo pedaço de pedra, igualmente triangular, desta feita com a letra “M” gravada, apareceu suspenso da aldraba. Mais uma vez olhou em redor, mas do autor da proeza nem rasto.
— Mas quem raio é que andará aqui a dependurar estas pedras? — murmurou. — E o que é que pretenderá com isto? Bom, um “M” misterioso — será que quer dizer mesmo mistério?! —, para já, vai ali para a gaveta fazer companhia ao “A”.
Bom, e durante seis dias consecutivos, todas as manhãs, ao levantar, a bela jovem Florinda foi sendo surpreendida por uma nova pedra dependurada na aldraba, quase todas de formatos diferentes, mas contendo cada uma delas algo gravado, em regra, uma letra do alfabeto. Assim, ao terceiro dia, deparou com a letra “E”, ao quarto, com a “-T” e, ao quinto, com a “O”. Ao sexto… bem, ao sexto dia, um simples desenho: uma flor!
Durante uns tempos, a mente baralhada e expectante da jovem tecedeira não conseguiu dali retirar qualquer conclusão, até que, de tanto matutar e manusear aqueles estranhos pedaços de pedra, descobriu que eles encaixavam perfeitamente uns nos outros, fazendo um verdadeiro mosaico donde ressaltava a palavra “AMO-TE”.
— Esta agora! Mas quem é que resolveu brincar comigo? — interrogou-se, intrigada.
Não muito longe de sua casa, morava um rapaz, um pouco mais velho, pedreiro de profissão, e que, já por mais do que uma vez, surpreendera a rondar-lhe a casa.
— Será o Zíngaro o autor desta façanha? Até que o moço nem é de se deitar fora! Um pouco escuro, é certo, mas… pronto, é do trabalho — murmurou, com um ligeiro sorriso.
Virgolino, mais conhecido por Zíngaro, alcunha que lhe adviera daquela pele tisnada pelo sol que, diária e impiedosamente, lhe cauterizava a cútis, naquele mourejar, de sol a sol, na pedreira Milhária, sem outra proteção que não aquele velho chapéu de palha já meio carcomido pelo uso, há muito que andava com a bela Florinda debaixo de olho. Os seus vinte e dois anos, dez deles de árdua labuta, as mãos calejadas do constante empunhar da pá, da picareta, da marreta e do camartelo, seus principais instrumentos de trabalho, nunca lhe deram muito tempo para dedicar às coisas do coração. O pai arrastara-o para aquela pedreira, mal ele acabara de soletrar as primeiras letras e, com elas, a custo, construir o seu nome, nos bancos da escola. Aos doze anos, já o pai o acordava de manhã bem cedinho para o acompanhar nas escavações da pedreira, em busca das placas xistosas de melhor calibre e consistência para os diversos fins que constituíam o objeto comercial da famosa e antiquíssima Empresa das Lousas de Valongo. Era ali, na Milhária, que ganhavam o seu pão-nosso-de-cada-dia; o seu e o dos restantes elementos do agregado familiar composto, igualmente, pela mãe e mais dois irmãozitos, um deles praticamente ainda mal gatinhava.
À medida que o tempo passava e ele se começava a aperceber de que, apesar de andar ainda na casa dos cinquenta anos, o seu pai dava já sinais notórios de sofrer dos pulmões, tantos haviam sido os anos exposto àquelas poeiras criminosas, mais ele sentia necessidade de se esforçar, pois várias bocas dependiam cada vez mais de si, do seu empenho, do seu trabalho. Além disso, mais tarde ou mais cedo, teria de seguir as pisadas dos seus ancestrais e constituir a sua própria família, pelo que, há algum tempo, vinha amealhando umas migalhazitas do seu parco ordenado e que lhe vinham sobrando daquilo que considerava, no seu dia-a-dia, essencial à sua subsistência.
Aos domingos, lavado e asseado, calçando aquelas botas de couro encomendadas ao Joel “Sapateiro”, seu vizinho, que lhe haviam custado os olhos da cara, como bom católico que se orgulhava de ser, lá ia até à igreja paroquial cumprir os rituais impostos pela sua religião, detendo-se, no final, tal como os outros rapazes, a observar as raparigas à saída da missa. A observar as raparigas, que é como quem diz, a observar a Florinda, mas sem coragem de lhe falar, tal o receio de vir a ser rejeitado na primeira abordagem que há muito ansiava… e ensaiava. Aquele rosto angelical da rapariga, ebúrneo, uma espécie de flor de estufa a quem os raios de sol parecia nunca terem sequer tocado, contrastava diametralmente com a sua tez morena, dando-lhe, a ele, obviamente, um certo ar de sem-abrigo. E isso vinha gerando no seu íntimo algum complexo, a par das mãos calejadas, rudes, marcas infligidas pela dureza daquele incessante mourejar, empunhando dos cabos das ferramentas.
Decidiu, então, sub-repticiamente, fazer aquele enigma das pedras gravadas como forma de se declarar. E foi, então, que, no segundo domingo seguinte, após a missa, já no exterior do templo, mais concretamente no adro da igreja, notando que Florinda, a sua bela e perfumada “Flor” que tanto o inebriava, a sua musa inspiradora, de olhar sorridente, fitava os olhos em si, arriscou:
— Então, Florinda, já descobriste o mistério das pedras gravadas?
— Ah! Eu bem desconfiava que só poderias ser tu! Levou algum tempo, Virgolino, mas consegui! O mistério das pedras e o do seu misterioso autor! — respondeu, com os olhos marejados de ternura.
— E não precisaste de recorrer à ajuda de ninguém?
— Não, a não ser à do meu próprio coração, Virgolino! O que achas?
— E, então, não tens nada para me dizer, Flor?
— Tenho. Anda cá! Chega-te aqui, dá cá o teu ouvido!
E, ternamente, sussurrou-lhe a palavra que ele mais queria ouvir, assim, num ápice, sem pedras nem puzzles, mas construindo com ele um belíssimo mosaico de emoções, estreitando-se ambos num longo e enternecedor abraço.
E os dias iam correndo de feição aos jovens enamorados que, nos locais mais recônditos dos caminhos por onde passeavam, iam trocando algumas carícias furtivas, ligeiras, que, habitualmente, não passavam de um simples entrelaçar dos dedos das mãos e um ou outro abraço mais ou menos apertado, mas sempre fugaz. O pudor não lhes consentia ir mais além nas suas efusões amorosas, pese embora vontade lhes não faltasse. Especialmente a ele, um barril de testosterona a ameaçar rebentar-lhe as aduelas. Mas isso ficaria reservado para o casamento. Era tradição e ponto assente… em princípio!
— Ouve lá, rapariga, não consegues arranjar coisa melhor? O rapaz até parece ser honesto e trabalhador, mas… assim, tisnado pelo sol, com aquele ar de vagabundo sem eira nem beira… — observou-lhe o pai, num dia em que acabara de os surpreender juntos.
— Mas, pai, aquilo é do trabalho, não é de andar por aí a vagabundar! Olhe que é uma pessoa honrada, séria e honesta! — replicou a donzela, apaixonada.
Apesar de Florinda lhe ter omitido o incidente, a verdade é que o jovem pedreiro vinha notando uma certa acrimónia da parte dos pais, particularmente desde que lhes constara que a sua filha começara a namorar consigo.
— Sabes, Flor, tenho notado que os teus pais, desde que começámos a namorar, me passaram a olhar um pouco de esguelha. Ao que parece, não lhes agrada a ideia de um dia me virem a ter como genro!
— Não dês importância a isso, Virgolino! Vais ver que, com o tempo, eles se irão habituar à ideia! Precisavas era de mudar de emprego, talvez arranjares um em que não andasses tão exposto ao sol, em que não desses tanto cabo da tua saúde.
— Ao sol, à chuva e àquelas poeiras criminosas, para já não falar do barulho que quase me traz meio surdo. Infelizmente, tenho lá em casa um bom exemplo do que aquele tipo de trabalho provoca em quem dele vive. Nem imaginas como o meu pai já tem os pulmões, à custa daquela maldita silicose! Completamente arruinados!
— Pois, tens mesmo de pensar nisso e, se puderes, safares-te enquanto é tempo.
— Já pensei nisso, já, mas… só se for numa padaria: trabalhar de noite e dormir de dia. Sempre faz menos calos e se está mais protegido das intempéries.
— Olha, não seria má ideia! Porque não tentares?
No dia seguinte, após uma noite de insónias em que pela sua mente viu desfilar todo o cortejo de padarias existentes em Valongo, Virgolino decidiu ir bater à porta da Irmãos Moreira, uma empresa sólida, bem implantada no mercado, oferecendo-lhe os seus préstimos.
Olhando para as sua credenciais — as mãos fortemente calejadas —, o respetivo sócio-gerente, até porque precisava de alguém com alguma robustez física capaz de acarretar lenha para aquecer os vetustos fornos de pedra, para além de ter de carregar aos ombros as pesadas taleigas de farinha moída nos moinhos hidráulicos instalados nas margens do rio Ferreira, de e para o lombo dos jumentos que a padaria tinha ao seu serviço, não hesitou em contratar o rapaz.
Com efeito, alguns dias depois, mais precisamente no início do mês seguinte, Virgolino passava a trabalhar na padaria, abandonando definitivamente a pá, a picareta, a marreta, os guilhos e o camartelo, na Milhária.
Com o decorrer do tempo, o novel empregado passou até a dar uma mãozinha na preparação da massa para a confeção dos pães, os famosos moletes, das regueifas e dos biscoitos, uma das especialidades da casa, fazendo com que a sua tez morena se fosse perdendo, retomando, a pouco e pouco, a sua natural tonalidade que era, obviamente, um pouco mais clara. E com isto, os pais de Florinda passaram a vê-lo com outros olhos, deixando de atazanar o toutiço à filha, o que foi dando azo a que os encontros entre o casal de enamorados deixassem de ter lugar um tanto ou quanto clandestinamente, na semiobscuridade, para passarem a ocorrer às claras, embora com natural recato, como era habitual na região.
— E tu, Flor, estás a pensar ser tecedeira para o resto da vida?
— Sei lá, Virgolino! Tem sido tradição lá da casa.
— De facto, o linho até é bonito. Especialmente quando está em flor. Bem vejo aqueles campos, junto ao rio: tudo plano, azulinho… É mesmo lindo!
— Pois é, mas não sei se imaginas o trabalho que dá! É preciso mondá-lo, para que não cresçam entre ele ervas daninhas; depois, quando já estiver criado, tem de ser arrancado à mão, para separar algumas dessas ervas que tenham ficado, atá-lo em pequenos feixes para, depois de posto a secar, ser ripado...
— O que é isso de ser ripado?
— Ser ripado é, numa eira ou sobre uns toldos, fazê-lo passar por um ripanço, para separar as folhas e as cápsulas, aquelas cabecinhas com uns piquinhos, que contêm as sementes, a linhaça. Picam que se fartam! Depois, apenas esses molhinhos de caules são mergulhados na água, durante uns dias, após o que são retirados e postos a secar. Uma vez bem secos, são malhados, amassados e espadelados, para ficar apenas a fibra que ainda há de passar pelo sedeiro, antes de ser fiado, enovelado, enfim… É um processo muito longo, com imensas fases. Olha, dá imenso trabalho — acho que não fazes a menor ideia! —, até chegar ao tear e daí às nossas camas, especialmente aos lençóis que dele são feitos.
— Pois, já vi que sim. Por acaso, não gostarias de vir trabalhar comigo? Sempre estaríamos mais próximos um do outro, partilharíamos as tarefas e, quem sabe, até, um dia, possamos vir a montar uma padaria!
— Olha, fala lá ao teu patrão, que eu tentarei convencer os meus pais! Não me parece que eles o consintam, facilmente.
A indústria de panificação estava em franco florescimento e a carecer de mão de obra, pelo que, obtido o consentimento paterno, não foi difícil a Florinda o seu ingresso na Irmãos Moreira, de quem já era, aliás, suficientemente conhecida e reconhecida como pessoa trabalhadora, competente e dotada de um elevado sentido de responsabilidade.
Enquanto Virgolino moía o grão e aquecia o forno, Florinda amassava o pão. Digamos que se complementavam, uma verdadeira simbiose. Bons augúrios para um futuro próspero que tanto ambicionavam e, obviamente, mereciam.
Era verão, uma daquelas noites de céu limpo, a lua redonda, cheia, qual espelho refletindo a luz do sol, parecia convidar os amantes ao devaneio, ao culto do amor. Virgolino, como habitualmente, tinha de ir ao moinho abastecê-lo de grão, verificar se tudo estava a funcionar bem, não fossem por lá as mós estar a moer em vão ou, pelo contrário, enlodadas, e recolher a farinha que já houvesse sido produzida. Não resistiu a convidar Florinda, que nessa noite estava disponível, a acompanhá-lo. E ela, tomada pelo mesmo enlevo, não hesitou em compartilhar aquela oportunidade de fruir a magia daquele momento a sós, longe dos olhares alheios.
Montados cada um em seu jumento, lá rumaram à azenha. Florinda, qual amazonas, cabelo solto ao vento, a saia subida por força duma melhor acomodação sobre a sela, exibindo as suas pudicas, alvas coxas, visão que não escapava ao olhar guloso do companheiro, ia soltando gritinhos estridentes, com receio de cair, firme e desesperadamente agarrada às rédeas da besta. E Virgolino, a seu lado, inspirando-lhe apoio e confiança, completamente inebriado, orgulhoso pela visão que em exclusivo lhe era oferecida, já não cavalgava, mas sentia-se voar nas asas do desejo que a libido lhe inflamara.
Chegados à azenha, Virgolino apeou-se e ajudou-a a descer da montada, segurando-a pelas axilas. Sem que a largasse, ao pousá-la no chão, puxou-a para si, abraçou-a fortemente e procurou-lhe com inusitada sofreguidão os lábios. Florinda não esboçou sequer uma tentativa de resistir àquela sedução. Deixou-se mergulhar naquele enlevo banhado de luar, ao som do marulhar das águas do rio e do canto das cigarras que povoavam os amieiros, tombando juntos, entrelaçados, na relva que crescia junto à margem.
— Como foi tão delicioso desfolhar as tuas pétalas, Flor! Sentir-lhes o aroma! Que maravilhosa sensação, meu amor!
— Espero não te ter desiludido, querido! Sabes, é a minha falta de experiência! Não sei como me saí!
— Olha, nesse aspeto, estamos em igualdade de circunstâncias. Sinceramente, não estou em condições de comparar. Mas lá que foi bom… ou melhor, maravilhoso…
— Oh, meu amor! Quer dizer, então, que ambos…?!
— Sim, desfolhei-te, Flor! Que orgulho!
— E eu, afinal, também tive a honra de… Bom, a partir de agora e, definitivamente, passas a ser apenas o Lino. Assim mesmo, sem virgo, estás a perceber? Pois é, meu menino, essa já era! Hmm, que bom! — e não resistiu a soltar uma sonora gargalhada.
— Calma, Flor! Ainda alguém te ouve e nos estraga o festim! Espero não te ter dececionado. Com tanta pressa, assim a modos que à foge que te agarro… a fomeca era tanta, e no desconforto deste colchão de relva mal aparada…
— Olha, Lino, foi mesmo uma rapidinha, mas lá que foi bom, disso não tenhas dúvidas! Provavelmente, com o tempo aperfeiçoaremos a técnica e a coisa irá ser cada vez melhor.
— Sim, e certamente em melhores condições, a qualquer hora do dia ou da noite, no aconchego do nosso lar, onde não corremos o risco de ser perturbados por quem ou pelo que quer que seja.
— O que é preciso é que o amor não falte, não é, meu querido? — observou Florinda, sensual, agarrando-se-lhe ao pescoço e pespegando-lhe um valente beijo nos lábios, que quase o sufocava.
— Ora, nem mais! Vamos é tratar disso o quanto antes!
Alguns meses se passaram e o casamento foi finalmente aprazado, para gáudio dos noivos e seus familiares e amigos.
Escassos anos mais tarde, mercê da experiência e dos conhecimentos entretanto adquiridos no ramo, ao serviço da entidade patronal, e já com um rebento nos braços, acabaram por se despedir da Irmãos Moreira, estabelecendo-se por conta própria, desta vez, em Ermesinde, com uma pequena, mas inovadora, biscoitaria, a Flor de Jasmim, lançando, assim, os alicerces de um futuro que se veio a revelar sólido e deveras auspicioso para o casal que as enigmáticas pedras da Milhária vieram a apadrinhar.

Autor:
Miguel Henriques

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Virtual vs real

Virtual vs real


Aqueles últimos dias haviam-nos passado ambos tomados por uma tão estranha quão doce ansiedade. O desejo de se poderem mirar olhos nos olhos, de se tocarem, de sentirem aquele toque de pele que faz vibrar de emoção qualquer coração minimamente apaixonado, de conhecerem o tom das suas vozes, segredo que deliberadamente foram reservando para aquele encontro ao vivo, de conhecerem o cheiro recíproco, enfim, tudo isto lhes vinha tirando literalmente o sono. E aquela persistente curiosidade, que não cessava de lhes minar a mente, sobre qual seria a reacção do outro ao cruzarem os seus olhares pela primeira vez, então é que, qual bola de neve, não parava de lhes potenciar a ansiedade. Iriam enrubescer, ficar completamente apáticos, ao ponto de as palavras lhes ficarem entaladas na garganta ressequida pelo nervosismo, ou, pelo contrário, tudo fluiria com a química naturalidade de duas almas gémeas que, pese embora ansiosas, há muito anseiam por restabelecer a sua originária unicidade?
Conheceram-se pela net, sem câmara, nas pontas dos dedos que diariamente acariciavam o teclado como se do rosto do outro se tratasse. Apenas uma fotografia supostamente actualizada de cada um, a utilizada no perfil da sua página na rede social, descarregada para o ambiente de trabalho, lhes servia de refrigério para as suas angústias e emoções, já que o recurso ao telefone foi, desde o início, espontânea e intencionalmente posto de parte por ambos. Era essa foto bem exposta e ampliada no ecrã, cujo sorriso contagiante tocava indelevelmente o outro, que imprimia o cunho e o ritmo das conversas que iam fluindo pelos dedos recíprocos no matraquear dos teclados. E a verdade é que, nessa estática virtualidade, o sonho se coloria e enfunava à medida que os dias iam passando.
Com efeito, as perguntas eram mais do que muitas, e o momento tão almejado parecia nunca mais chegar, como se a sua ansiedade tivesse de escalar aquele íngreme calendário que parecia ter parado no tempo, travado por um qualquer génio do mal, avesso ao amor.
Eis que, finalmente, esse dia chegou. Luana, no sentido de se sentir mais segura e confortável, havia convidado uma amiga para a acompanhar naquela que já vinha considerando a mais fascinante aventura da sua vida, pese embora isso fosse um segredo que apenas para si guardara. Uma amiga a quem, conhecendo-a há muito, não passou despercebido o estranho nervosismo que de si se apoderara, mas que soubera conter a curiosidade, esperando para ver, pois a amizade não pode ser beliscada pelo simples facto de cada um pretender guardar exclusivamente para si um simples núcleo de privacidade. O rosto, os olhos, as incontornáveis janelas do edifício humano, raramente conseguem esconder o que nos vai no coração… e na alma. No entanto, não quis estragar o momento da amiga com perguntas inoportunas ou menos pertinentes que pudessem denunciar uma qualquer tentativa de devassa de um possível segredo íntimo que aquela eventualmente guardasse e quisesse reservar para si e para os seus botões.
Enquanto isso, Mel Igu, personagem principal no evento que iria ter lugar, aguardava, nervosamente, no exterior do auditório, a aparição daquela que nos últimos tempos lhe vinha tomando conta de todos os seus instantes, absorvendo por completo os seus pensamentos, dominando integralmente as suas emoções. Desde o dia em que pela primeira vez, no silêncio dos seus aposentos, os seus dedos cúmplices trocaram declarações de amor recíproco, os dias haviam passado a ser bons ou maus conforme o estado de humor do seu relacionamento. Aquele constante correr para o computador, na expectativa de “encontrar” o outro, para com ele compartilhar o seu dia-a-dia, tornara-se já não só uma simples rotina, mas uma necessidade premente para o anímico bem-estar de qualquer deles. Um dia-a-dia partilhado nas pontas dos dedos, sem imagem nem som, apenas o do estrepitoso bater do teclado ao ritmo das emoções.
Escassos minutos antes da hora aprazada para o início do evento, numa altura em que os olhos ansiosos de Mel Igu varriam o horizonte, eis que vislumbra Luana a aproximar-se, passo estugado, mas seguro, acompanhada pela amiga, também esta uma velha amiga e conhecida daquele, mas que já não via desde a infância. Escusado será dizer que os olhares de Luana e Mel Igu, emoldurados por um lindo e enternecedor sorriso, ficaram presos um no outro, como que por hipnose, até ao momento em que os seus rostos se tocaram pela primeira vez, naquele ósculo bilateral, delicado, elegante, momento em que pareceu terem-se fechado para saborearem até à exaustão toda a magia do encontro. Só a aproximação da amiga para o cumprimento da praxe teve o condão de quebrar aquele encanto, a que, por cortesia, ele teve de anuir. Mas a hora da conferência aproximava-se e, noblesse oblige, a plateia, bem como a pontualidade que sempre fora apanágio do orador, reclamavam a sua presença imediata, pelo que só no final do evento poderiam dar sequência àquele desfilar de emoções que os assaltara.
Encerrada a sessão, eram horas de jantar, e nada melhor do que uma refeição a dois, em torno duma mesa, num recatado restaurante das redondezas, onde os olhares alheios não pudessem quebrar ou sequer perturbar o encanto do momento.
- Adorei aquela tua dissertação, Mel Igu, sobre o amor conjugal e toda a problemática que os anos de casamento acarretam para a convivência pacífica e harmoniosa do casal!
- Obrigado, Luana! Como referi e toda a gente sabe, na vida do casal, nem tudo são rosas. É natural que, mais cedo ou mais tarde, vá surgindo alguma conflitualidade. A questão está em saber, ser capaz de avaliar aquilo por que vale a pena lutar, aquilo que é viável e pode contribuir para a saudável estabilização e consolidação dos afectos, e aquilo que, a manter-se, apenas vai contribuindo para o desgaste da relação e dos seus protagonistas, aumentando a sua inevitável conflitualidade no palco da tragédia conjugal. E, em face disso, como é óbvio, há um momento em que ambos têm de reflectir e, se necessário for, dar um murro na mesa, dizer basta, partindo para outra, como se costuma dizer, sem pudores nem preconceitos, sejam eles de que natureza forem. A vida, em meu entender, deve celebrar o amor!
- És um hedonista, Mel Igu, já deu para perceber!
- Não tenhas dúvidas, Luana! Para mim, a vida só faz sentido enquanto ela nos conseguir proporcionar algum prazer. A dor, o sofrimento, a doença, são meros degraus na íngreme escadaria, mais ou menos longa, que desce para a morte. É a natureza das coisas a ditar o seu curso! Tudo o que o Homem tem feito é contrariá-la com recurso à medicina e a outros ramos da ciência. E, como disse, quer na saúde física, quer na psíquica ou sentimental, quando a felicidade, o prazer, passaram a ser meras miragens, insistir na caminhada não é mais do que prolongar a agonia.
- Bom, mudemos de assunto! E que tal brindarmos ao nosso encontro? Ou será que é reencontro?!
- Seja aquilo que for, Luana, o que importa é que estejamos assim, bem juntinhos, de olhos nos olhos, frente a frente, mãos firmes e dedos solidamente entrelaçados nos braços estendidos sobre a mesa. Brindemos!
- Que lindo! – retorquiu Luana, embevecida – Brindemos!
E o brinde foi selado com um longo beijo, um beijo com sabor, um sabor real, sentido no entrecruzar das línguas sôfregas. O mundo fechou-se em seu redor, naquele abraço absorvente que teve o condão de lhes incendiar a libido. As palavras saíram de cena, dando lugar aos sentidos, os dedos abandonaram a solidão do teclado, para se ocuparem com coisas bem mais reais e deliciosas. O virtual acabara de representar o seu papel.
- O toque, Mel Igu! Como eu sentia falta disto! Nada pode suprir a falta do outro, quando o amor os une e nele se plasmam todos os seus sonhos e emoções. Nenhuma virtualidade, por mais cor-de-rosa que se pinte, nos preenche tanto como um simples entrelaçar dos dedos!
- Aproveitemos o momento, Luana! Que ele venha a ser a sementeira afável e generosa que, no futuro, nos venha a proporcionar o melhor dos frutos, para que, se possível, de mãos dadas, neste enlevo, consigamos sulcar a vida reduzindo ao mínimo os escolhos que pelo caminho nos forem surgindo.
E de novo se ergueram os copos: «chim-chim!»
- À nossa! – proclamaram ambos, em uníssono.






Autor:
        Miguel Henriques


 In "Colectânea de Prosa e Poesia VIII", edição Escritartes/Mosaico de Palavras, 2015

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

ATERRORIZADO

ATERRORIZADO[1]

Decorria a hora de almoço, quando a campainha do palacete da Pereira Reis, onde funcionam instalações da Polícia Judiciária do Porto, soa insistentemente. Pelo videoporteiro, o inspector de serviço pôde descortinar a silhueta de um cavalheiro que aparentava os seus cinquenta e tais, exibindo um minúsculo cartão que, todavia, lhe não fora possível identificar. Perguntou quem era, e a resposta não tardou, disparada de súbito, em tom de súplica desesperada.
– Por favor, deixe-me entrar, senhor inspector! Estou a ser perseguido por uma corja de bandidos que me querem matar.
– Não querem lá ver que é mais um daqueles dementes que andam por aí a bater nas costas das pessoas, junto às paragens doa autocarros, a pedir cigarros ou «uma esmolinha por alma de quem lá tem»! A culpa disto tudo é de quem instalou a Polícia Judiciária nas proximidades do Conde de Ferreira – murmurou o investigador. Porém, fingindo não ter entendido a súplica, insistiu:
– Faça o favor! O que é que o senhor deseja?
E o indivíduo, ofegante, volta à carga, no mesmo tom de desespero:
– Abra-me depressa a porta, senhor inspector, senão eles matam-me!
Apercebendo-se do medo que o transia – afinal, os loucos também sofrem! –, o investigador manda-o entrar e permanecer encostado ao portão, da parte de dentro, onde ninguém, seguramente, lhe faria mal, até que alguém o fosse atender. Seguidamente, abre-lhe o portão através do comando electrónico, e eis senão quando vê entrar, de rompante, ar assustadiço, um sujeito de compleição física razoável, na casa dos quarenta, de cartão entalado entre o indicador e o polegar direitos, bem içado para que toda a gente o visse, olhando insistentemente para trás, completamente aterrorizado. Avançou uns metros e aguardou por ali, sondando com o olhar o prédio, de alto a baixo, e suas imediações, na expectativa de vislumbrar alguém que se apressasse a vir em seu socorro.
Fechado o portão, o inspector assoma à janela do 2.º piso, de onde, para o tranquilizar, o aconselha a ter calma, pois ali ninguém lhe fará mal, prometendo-lhe descer de imediato para o atender. E, absolutamente em pânico, o cavalheiro volta de novo a exibir-lhe o minúsculo cartão que, de lá do alto, obviamente, o inspector nunca poderia identificar. Contudo, apesar da distância, ainda pôde perceber pelas suas palavras trémulas de pavor, a corroborar a identificação, que era reformado das Actividades Económicas.
Desceu ao seu encontro, deparando com um indivíduo verdadeiramente possesso, mascando umas pastilhas, provavelmente medicinais, que exalavam um intenso hálito desagradável e apresentando os cantos da boca orlados de uma matéria esbranquiçada. Verificou o tal cartão, confirmando a identidade que já lhe havia fornecido verbalmente.
– Com que então, querem matá-lo, é, esses bandidos? – indagou o investigador, simulando ter acreditado, uma vez que a intuição já lhe havia feito o diagnóstico.
– Querem, sim, senhor inspector. Acuda-me, por favor! Está lá fora um batalhão de indivíduos armados até aos dentes; aquilo é metralhadoras, caçadeiras, punhais, e olhe, vieram a perseguir-me até aqui e querem matar-me – e sem que conseguisse acabar de tartamudear a frase, embargou-se-lhe a voz, numa acentuada lividez, os lábios frementes de emoção.
«Bem me palpitou que deveria ser mais um esquizofrénico que se enganou na porta. E logo havia de me tocar a mim este petisco», murmurou o inspector.
– E então o que é que, afinal, esses malandros todos lhe querem?
– Querem matar-me, senhor, pois o que é que hão-de querer?!
– Eu sei! Mas não foi isso o que eu perguntei! Porque é que, afinal, eles o querem matar? O que é que o senhor lhes fez?
– Nada. Eu não lhes fiz nada. E olhe que já vêm atrás de mim desde o Hospital Conde de Ferreira!
Conde de Ferreira! Afinal, se dúvidas havia…
Dizer-lhe que não, que aquilo era uma alucinação ou coisa que o valha era o mesmo que estar calado; ou pior ainda: para ele, o louco passaria, com toda a certeza, a ser o inspector, e iria interpretar a sua atitude como má vontade ou um expediente para o despachar, em vez de lhe dar ouvidos e tentar ajudá-lo. Não. Deixou-se entrar no jogo, mostrando-se empenhado em ajudá-lo. Insistiu em querer saber mais pormenores do ataque e das razões que o motivaram, para, depois, agir em conformidade.
– Olhe, eu fui agente das Actividades Económicas, e tive um chefe que estava sempre a entornar. Como sabe, a gente visitava muita casa, e eu, para não ficar mal ao pé dele, é claro, deixei-me ir na onda.
– Já estou a ver o filme! Copofonia, não é verdade?
– Infelizmente, senhor inspector. Comecei a beber, a beber, e olhe, escusado será dizer que, quando dei por mim, estava um alcoólico crónico. Fui ao médico, que me deu um remédio para me desintoxicar, e olhe, deu nisto. Fiquei assim, lerdo das ideias, pelo que não tive outro remédio senão reformar-me. Fui mandado para o Conde de Ferreira. Agora, ando lá nas consultas.
– Hm! Hm!
– Sabe, eu vivo sozinho num quarto alugado, perto da Praça da República. Às vezes, saio de casa e, como não tenho que fazer, dou umas voltas por aí, para ir passando o meu tempo. Hoje, encontrei um sujeito, no jardim do Marquês, que meteu conversa comigo, e como não tinha que fazer e era dia de ir à consulta, pedi-lhe que me acompanhasse. Ele aceitou, sem me criar qualquer problema. Só que, quando eu estava a ser visto pela médica, e não sei por que carga de água, disse-lhe que eu era homossexual. E olhe, não é que ela não só já não acabou a consulta, como me disse que não queria mais nada comigo!
– Pô-lo na rua, com alta forçada, foi?!
– Pois foi. Mas o pior foi o que veio a seguir. Como se isso não bastasse, o fulano arrebanhou um grupo de indivíduos, todos armados – aquela seita que está lá fora! –, e que se puseram a perseguir-me rua fora até aqui. Se não fosse o senhor abrir-me ao portão para me proteger, não sei o que é que me poderia ter acontecido! Ai não sei, não!
– Tenha calma, homem! Aqui, está em segurança, ninguém lhe vai tocar. Sossegue, que eles não lhe vão fazer mal. Eu vou já tratar de os ensacar. Vou já telefonar para a Esquadra daqui da zona, e vai ver que eles passam tudo a pente fino num instante e tudo o que encontrarem levam, pelo que o senhor já vai poder regressar a sua casa, são e salvo, com toda a segurança. Certo? Aguarde aí, por favor!
– Agradeço-lhe imenso, do fundo do coração, senhor inspector. Olhe que esses bandidos, se me apanham, matam-me. Mas é que matam mesmo! Não tenha a menor dúvida!
– Ai lá isso, pelos vistos, meios não lhes faltam! Bom, fique descansado. Aguarde aqui, que eu vou já tratar disso.  
E o agente voltou a subir ao 2.º piso, refastelar-se na cadeira e acabar de ver na TV o noticiário das treze, que aquela aflição lhe havia forçado a interromper. Passada cerca de meia hora, tempo que calculou suficiente para a operação de limpeza à zona, e terminado o noticiário – ou será que os loucos não têm a noção do tempo? –, desceu novamente junto do perseguido, encontrando-o completamente transfigurado para melhor, obviamente: completamente relaxado, tendo a sua lividez cedido lugar a um leve rubor.
– E então, senhor inspector, eles sempre os apanharam?
– Tudo! Apanharam-nos todos, sim, senhor. E olhe que, afinal, o senhor tinha toda a razão! Era realmente um batalhão deles. Creio que levaram daí meia dúzia de furgões completamente a abarrotar. Só de armas encheram eles uma ramona!
– ‘Tá a ver, ‘tá a ver! Eu não lhe dizia?! Eu sabia que tinha razão. Não querem acreditar em mim!
– Pronto, agora é que pode ficar completamente descansado. Foi tudo limpo.
– Estou-lhe imensamente grato, senhor inspector.
– Bom, e agora para onde é que o senhor vai?
– Vou para minha casa.
– E por onde é que está a pensar ir?
– Aqui pela Costa Cabral, ao Marquês, Constituição…
– Não! Não vá por aí! Preste atenção ao que lhe vou dizer: vá antes aqui por trás, pelo campo do Salgueiros – sabe onde é? –, sobe a Álvaro de Castelões, vira para a rua do Bolama… É mais seguro. Não vá, às vezes, o diabo tecê-las. É que não vá dar-se o caso de ter ficado por aí algum esquecido e…
– Sei, sei, conheço muito bem esse caminho. Muitíssimo obrigado, senhor inspector!
E o investigador lá regressou ao seu posto de trabalho, encolhendo os ombros, murmurando, admirado consigo mesmo, com a forma airosa como se desembaraçou da situação. «Realmente, não é para resolver situações destas que um investigador criminal é preparado. Nunca estudei psiquiatria, pelo que ignoro se a solução dada ao caso vem ou não nos manuais. Mas lá que ela resultou, resultou! Perdoem-me os psiquiatras o eu ter metido a foice na sua seara, se é que meti. Mas o certo é que o homem lá foi, calmo e sossegado, à sua vida, cheio de gratidão por o ter salvado de um linchamento».
Bom, pelo menos, por uns tempos, aqueles “agressores” não haveriam de voltar a persegui-lo. Livrara-o, pois, de um linchamento cuja ameaça era para ele tão real, quanto o era para si o nada disso se estar a passar. Mas o certo é que , neste caso, foi à sua porta que bateram a pedir tal tipo de ajuda.

Autor,
Miguel Henriques




[1] Publicado em “Um Outro Olhar, Antologia I, Poesia, Contos e outras narrativas”, edição da Polícia Judiciária, 1998. Baseado em factos reais.




MARIA... SIMPLESMENTE!

MARIA… simplesmente!



Ar assustado, um tanto combalido, sondou com o olhar os circunstantes, à medida que avançava timidamente o passo, acabando por dirigir-se àquele que primeiro lhe surgiu pela frente com uma chapa pendurada na lapela e que lhe pareceu ter dado pela sua presença.
– Provavelmente, será alguém que está aqui para atender o público! – comentou com os seus botões.
O que significava aquele penduricalho na lapela ela não o podia saber, pois, infelizmente, saber ler era um luxo dos mais novos e de alguns privilegiados, mais antigos, que nunca fora permitido às suas quase cinco dúzias de anos.
– Quase cinco dúzias, senhor, olhe que é quanto já conta esta miséria que aqui tem à sua frente! – veio a esclarecer, momentos depois, ao agente, já no decurso da sua pungente narrativa.
Seria ali, naquele cubículo fumegante, empestado de nicotina, a tresandar a fuligem encardida, com uma secretária alagada em telefones e papéis avulsos, rodeada de aperaltados cavalheiros, todos enfatuados e fingindo-se de bem dispostos, que funcionava o tal serviço de piquete para onde a havia mandado o funcionário que a havia recebido à entrada?
– Faça favor, minha senhora! – acode, solícito, um dos agentes, o tal da chapinha ao peito, a quem, felizmente, a disposição para o trabalho e o cumprimento do dever não haviam turvado ainda a visão nem entorpecido a disponibilidade e a sensatez.
– Eu queria apresentar uma queixa, meu senhor, desculpe, mas eu não sei como é que o hei-de tratar!
– Por agente, minha senhora, trate-me por agente, que é a minha categoria, aqui dentro, e daí a razão pela qual aqui estou. É verdade, estou aqui, exactamente, para a atender, tal como a todas as pessoas que cá vierem. Vá, vamos lá, faça o favor de dizer, pretende então apresentar uma queixa, é?
– É, sim, senhor Agente, é isso mesmo, só que, desculpe, mas eu nem sei como é que hei-de começar!
– Não há problema, a gente ajuda no que for necessário. Ora, então, faça favor, tenha a bondade de me acompanhar. Vamos antes aqui para esta salinha, que é para podermos conversar mais à vontade – convidou, na mesma solicitude, o investigador, homem quarentão, temperado nas agruras da vida e habituado a escarafunchar no entulho social, enquanto a ia conduzindo para a comummente designada “sala das queixas”.
– Ora vamos lá, faça o favor de me dizer, então, qual o motivo da sua queixa! – perguntou o investigador, enquanto ia puxando de uma cadeira e a ajeitava para que a senhora se sentasse.
E a senhora, de ar desconfiado, após ter agradecido a delicadeza, inspeccionou, num relance, todo o espaço circundante, interrompendo momentaneamente o discurso para perscrutar o outro lado do biombo, não fosse alguém ouvir aquele chorrilho de poucas-vergonhas que tinha para contar. É que, falar mal de um filho, é consabidamente uma espécie de faca de dois gumes, tanto pode envergonhá-lo a ele, como àqueles que tiveram a responsabilidade de o criar e educar.
           – Olhe, senhor Agente, eu sou viúva há vinte anos. O meu marido, que Deus lá tenha em descanso, morreu em Espanha, num acidente, coitadinho! Sabe, era camionista! Deixou-me sozinha, sem emprego e com dois filhos pequenos, ainda crianças, para criar, a viver de uma pensão de miséria, mil e tal escudos, está a ver, senhor Agente, mil e tal escudos… Bom, mas também é verdade que isso já foi há vinte anos! Sabe, é que eu já tenho quase cinco dúzias deles, quase cinco dúzias, senhor, é quanto já dura esta miséria que tem aqui à sua frente. Olhe que, como o senhor pode ver, eu já estou em metade daquilo que era, não em altura, porque, aí, eu sempre fui assim uma atarracadinha, mas, em largura, eu já fui bastante forte, senhor, olhe que já cheguei a pesar sessenta e tal quilos, ah! Hoje, coitada de mim, não passo dos 40, se é que lá chego. Como vê, estou quase só pele e osso, um farrapo humano e, ainda por cima, doente e sem poder trabalhar.
         E o agente lá foi ouvindo, atentamente, o profuso desfiar de todo um rosário de lamentações e angústias, jorrado em catadupa da boca daquele frágil ser humano, de ar enfezado, esquelético, pele encarquilhada, olhitos escondidos, refluindo um brilho baço da profundeza das órbitas, por detrás das pálpebras ressequidas, em seu pouco mais de metrito e meio de altura.
           – Então, e depois? Vá, conte lá! É que, afinal, ainda não me disse exactamente porque é que cá veio?!
         – Olhe, senhor Agente, desculpe o tempo que lhe estou a tomar, mas eu tenho de lhe contar toda a história, para ver se me compreende e me pode ajudar.
         – Com certeza, dona… desculpe, creio que ainda me não disse qual é a sua graça?!
         – Maria, senhor. Chamo-me Maria.
      – Só Maria?! – indagou o agente, lançando um olhar sub-reptício ao papelinho que o segurança lhe havia dado à entrada, apercebendo-se de que do nome constava algo mais.
        – Só Maria! Maria… simplesmente, até faz lembrar aquele folhetim que antigamente passava na rádio, lembra-se? Se calhar, não, o senhor ainda é muito novo! – insistiu.
       – É claro que lembro, mas… simplesmente, porquê?
       – Simplesmente, porque… é que, sabe, afinal, o meu nome completo até é Maria Jorge, mas como Jorge é nome de homem, eu costumo dizer que sou Maria… simplesmente.
       – Bom, mas, Marias com nome de homem, há, como sabe, tantas: Maria João, Maria José, Maria Manuel…
       – Pois há, lá isso é verdade, mas eu cá é que não gosto nada de ser Jorge!
       – Mas olhe que, cá para mim, Jorge até é um nome bonito, mas, pronto, tem todo o direito de não gostar, os gostos não se discutem, não é assim? Vá lá, então, dona Maria, conte lá o que é que a trouxe por cá.
       – Olhe, senhor Agente, uma rapariga nova, acabadinha de entrar nos quarenta, livre, mas com dois filhos para criar… enfim, sabe como são estas coisas! Apareceu-me um homem de quem eu gostei, e que gostou de mim, também, e, olhe, resolvemos juntar os trapinhos, como se costuma dizer. Juntámo-nos e passámos a viver em minha casa, pobrezinha, é certo, mas era – era e é! – a minha casa, e só nos não casámos por causa de eu não perder a reformazinha do meu falecido, era pequena mas sempre era alguma coisa e onde ela tapava... E, então, olhe, tivemos uma filha, uma menina muito linda que anda já nos 18 aninhos, coitadinha, começou este mês a trabalhar como ajudante de cabeleireira, a ganhar trinta e tal continhos por mês, está toda contente, é pouco, mas, coitadinha, vai ser o seu primeiro ordenadinho! E sabe, senhor Agente, é como se costuma dizer: buraco que aquele tapar… Não vai ser preciso outro, não é verdade?
        – Isso é só no início, dona Maria, com a prática, há-de vir a ganhar mais, com certeza, vai ver!
        – Pois é, senhor Agente, mas eu é que estou cheínha, cheínha de medo, sabe?!
        – Medo de quê, dona Maria?
        – Daqueles malandros dos outros meus dois filhos, são muito ruins, sabe?!
        – Ah, sim, degeneraram, às vezes, acontece. Que idade é que eles têm?
       – O mais novo tem 26, e o mais velho já anda creio que nos 33, mas são uns vagabundos! O mais novo ainda vá que não vá, que, quando me vê aflita, ainda é capaz de ter pena de mim e de dar uma mãozita, a ajudar, agora o outro… Aquilo é mas é o diabo em pessoa que entrou lá em casa, meteu-se na droga, e olhe, não só não faz nada, como, ainda por cima, me rouba tudo, aquele desalmado! Rouba-me tudo, tudo! Depois, e como se isso lhe não bastasse, ainda me insulta de tudo e mais alguma coisa. Aquilo é do piorio, de curta pra cima, curta pra baixo, e constantemente a ameaçar-me de que, se lhe não der dinheiro, um dia destes ainda me há-de matar. Alega que, como sou mãe dele e já que o trouxe ao mundo, eu é que tenho a obrigação de o sustentar, portanto… E olhe, senhor Agente, se alguma coisinha vou arranjando para comer é porque, graças a Deus, ainda vai havendo gente boa, pessoas amigas que me têm ajudado com uma ou outra esmolinha, é que eu não posso trabalhar. Com licença, está a ver aqui esta costura? – e, desabotoando a blusa, exibiu um segmento da cicatriz que lhe atravessava o esterno, de alto a baixo. – Fui operada ao coração, há pouco mais de um ano, olhe que até me chegaram a tirar veias das pernas para meter aqui, no meu pobre coraçãozinho. Se não fosse operada, já aqui não estava a esta hora, não sei se está a ver?! Mas olhe, afinal, e vendo bem as coisas, nem sei o que é que teria sido melhor! Eu já estava desenganadinha dos médicos, não me davam mais de três meses de vida, andava sempre a desmaiar, a desmaiar, tinha as minhas veias atrofiadinhas, tão apertadinhas, segundo eles diziam, que o sangue já mal podia circular!
         – Pronto, mas, felizmente, agora, já não tem esse problema, pois não?!
       – Graças a Deus, senhor Agente, graças a Deus, já que a gente tem de estar viva e tem… Só que eu não posso é trabalhar, ando pela Conferência([1]). Mas… tenho vergonha, muita vergonha, senhor, olhe que passam-se dias e dias em que não sei o que é levar uma migalhinha à boca, e aquele malandro a roubar-me, a insultar-me e a ameaçar-me, todo o santo dia! Olhe que, num destes dias, se eu me não tivesse precavido, dando um salto para trás, tinha-me partido ambas as pernas com um pau que me atirou, aquele malandro!
        – Se assim é, tem em casa uma rica prenda, lá isso tem, sem dúvida!
       – Mas oiça, senhor Agente, há dias – Deus Nosso Senhor me perdoe –, mas olhe que ainda cheguei a pensar que ele se tinha matado!
       – Como assim?
       – Olhe, abri a porta do quarto e encontrei-o sobre a cama, muito quietinho, virado para o ar, em tronco nu, com uma seringa e a agulha espetada na barriga. Ainda pensei cá para comigo: ó meu Deus, será que foi desta vez que ele me deixou em paz? Vai ser um descanso! Desculpe falar assim, não sei se tem filhos, mas olhe que foi mesmo o que eu pensei! Fiquei cheínha de medo e fechei a porta, mas, pouco tempo depois, já aquele malvado lá andava outra vez a cirandar no quarto. E eu que tantos sacrifícios passei para o criar… Agora, o meu maior medo é que eles façam mal à menina, à meia-irmã, olhe que, cá para mim, são muito capazes, até, de abusar dela, aqueles bandidos. E agora se lhes cheirar a dinheiro fresco… Não sei não como é que vai ser, não…
        – E o que é feito do tal senhor com quem a senhora disse que vivia, o pai da rapariga?
       – Esse, coitado, cansou-se de aturar as patifarias dos meus filhos e foi para casa dos pais dele. Agora, veja o senhor, sem o meu homem, sem poder trabalhar, sem rendimentos, com aqueles malandros a roubarem-me tudo, o que é que há-de ser de mim? Olhe que a minha fraqueza é tão grande que estou a olhar para si e até parece que estou a ver duas pessoas à minha frente! – e fez uma pausa, olhar embaciado e prostrado no chão, quiçá rebuscando mentalmente as algibeiras, o estômago a dar horas, envergonhada por ter deixado escapar aquele lamento – Ainda se ao menos eu tivesse um pãozinho, mesmo que fosse sequinho, para comer…
        Condoído, o agente não se conteve, puxou da carteira, sacou uma nota de quinhentos mil réis e meteu-lha na mão.
        – Tome lá que é para comer uma sanduíche, antes de chegar a casa.
      – Obrigada, muito obrigada, senhor Agente, mas não, não quero. Não, não posso, eu acho que não devo aceitar.
       – Mas acha que não deve aceitar, porquê? Vá, faça o favor, deixe-se disso, é pouco, mas olhe que é de boa vontade!
       – Muitíssimo obrigada, o senhor escusava de se estar a incomodar comigo, Deus lhe dê muita saúde e à sua família, senhor Agente.
      – E a si também, dona Maria, muito obrigado.
    – Olhe que, às vezes, nem sei o que é que me apetece fazer, senhor! Passa-me cá cada coisa pela cabeça…
   – Vá lá, vá lá, dona Maria, tenha calma, muita calma! Eles não merecem esse sacrifício. Vai ver que melhores dias hão-de vir, se Deus quiser!
      – Não sei, não sei, senhor Agente, o que ainda me pode vir a acontecer!
Daqueles olhos ressequidos pareceu ressumar um arremedo de lágrimas carminadas, mas a verdade é que um corpo tão estiolado pelos malefícios da vida não podia dar-se ao luxo de esbanjar fluidos.
      E lá se foi a dona Maria Jorge, aliás, Maria… simplesmente, muito provavelmente, calcorreando a pé os quilómetros que a separavam de Gondomar, donde disse ter vindo pelo mesmo meio. Mulher que, por ironia, tinha no nome um nome de homem. Homem que por razões estranhas à sua vontade, dela, a deixou só, para ir viver com os pais, numa atitude, quiçá egoísta, mas que ela sempre procurou compreender. Talvez por isso, sem que se desse conta, se recusava a admitir o apelido Jorge, nome de homem, no seu próprio nome, porque, afinal, os homens da sua vida, o que é que haviam significado? Abandono, sacrifício, violência…
      O agente lá rematou como pôde a situação. Visivelmente emocionado, dirigiu-se para o tal cubículo, onde se encontrava o chefe e outros colegas baforando fumo no rescaldo de mais uma jornada de futebol a alimentar o ócio.
       – Chefe, mais casos destes, hoje, e bem fico depenado!
       – Então? O que é que se passou?
     Posto ao corrente da situação, o chefe limitou-se a lavar as mãos, num eloquente encolher de ombros. Porém, um colega menos comedido, de lá do alto da sua presunção, não contém o sarcasmo e, por entre duas sobranceiras baforadas, proclama:
      – Já estou a ver, pá, foste comido de cebolada! Cá para mim, caíste que nem um patinho!
     – Não, meu caro colega, com todo o respeito devido à tua perspicácia, que alguma há-de ser, de outro modo, muito provavelmente, não estarias aqui, reconheço que posso ser ingénuo, o que não quer dizer que o tenha sido neste caso, mas julgo não ser assim tão lorpa, como parece quereres fazer crer. Ah! E já agora outra coisa: acima de tudo, sou humano; ou então, se porventura te der mais gozo, ingenuamente humano!
     – Hum, hum! – resmungou entredentes o outro.


Porto, Maio de 1993

(Baseado em factos reais)

O autor:
Miguel Henriques




([1]) Alusão à Instituição de Beneficência conhecida por Conferência de S. Vicente de Paulo.