Translate

quarta-feira, 21 de abril de 2021

DE LAMEGO AO LUBANGO - memórias dos últimos dias da guerra colonial


 E porque todos os RANGERS passaram pela mesma ou idêntica situação, aqui fica mais um excerto da narração da minha prova "A LARGADA" que terminou faz hoje precisamente 47 anos.

Lembro que o curso completo, o 2.º de 1974, vem exaustivamente narrado num dos capítulos do meu livro "DE LAMEGO AO LUBANGO..."
Quem o pretender adquirir autografado poderá contactar-me através do messenger ou do meu email:
mahrenator@gmail.com
Um abraço RANGER
A LARGADA
A custo, obviamente, lá se vão arrastando os primeiros dias de horas intermináveis, até que bate à porta o sábado, 20 de abril. Um dia em que, em circunstâncias normais, seria suposto estarmos a partir ou já ter partido de fim de semana. Pelo menos, na recruta assim acontecia. Mas ali, não! Tal como tinha acontecido nos dias precedentes, findo o jantar, recolhemo-nos à caserna, para descansar.
Porém, pelas 21 horas, estávamos já deitados na cama, quando fomos surpreendidos, através da instalação sonora da caserna, pela ordem de formar imediatamente no refeitório, trajados com o uniforme n.º 3 e sem nada nos bolsos. Uma ordem estranha — achei-o eu, na altura, mal imaginando que, afinal, situações do género iriam passar a ser, quase diria, a ementa diária! —, pois era a primeira vez que tal acontecia. Mas, enfim, como a regra para todos os formandos — cadetes e instruendos, as duas categorias que integravam a companhia — era o sigilo absoluto, o desconhecimento puro e simples do que nos poderia acontecer no momento a seguir, e o que quer que fosse não seria, por certo, coisa boa, deixou-nos, e a mim, particularmente, que nunca cuidei de saber como é que ali se exorcizavam os demónios que nos infernizavam o dia-a-dia, estrambelhando-nos por completo os sentimentos, e se montavam e punham em andamento as máquinas de guerra, suspensos de uma ansiosa expectativa. Tal como já deixei dito noutra sede, desde que fui obrigado a ir para a tropa, tornei-me numa espécie de robô comandado por terceiros, ciente de que a minha opinião ou posição, fosse ela qual fosse, não contaria para nada. O meu sentimento de impotência era total. E, assim sendo, quem sabe se até antevendo nessa atitude de absoluto alheamento uma forma de evitar sofrer por antecipação, nunca me preocupei em saber que tipo de instrução ali se ministrava, quais as provas que envolvia, como contornar ou tentar contornar situações de aperto, enfim! Situação inversa passava-se, vim a sabê-lo mais tarde, com outros camaradas que, ou porque quisessem mesmo ser rangers ou porque já tivessem conhecido alguém que por ali tivesse passado, já tinham uma noção mais ou menos aproximada do que os esperava. Eu não. Para mim tudo era novidade.
Mal acabou de se reunir no refeitório todo o efetivo, eis que, no mais absoluto silêncio, e com intervalos de cerca de um minuto, fomos sendo mandados sair um por um. Levou esta operação de evacuação cerca de duas horas, ou não fôssemos, ao todo, creio que cento e vinte e seis homens. Foram duas longas e intrigantes horas para mim, já que acabei por ser dos últimos a sair. Ao chegar à porta, a noite escura como o breu, o alferes Cambão, reconheci-o pela voz, barrou-me a passagem, e com um ar que inspirava terror, disparou, em catadupa, toda uma série de perguntas cínicas, agoirentas, enquanto me conduzia para um local situado a cerca de uns trinta metros, ao longo da parede da caserna e no sentido da carreira do tiro:
— Você é emotivo? Sofre do coração? Sabe para onde é que vai? Sabia que ainda pode morrer hoje? Tem família? Já se despediu dela? Tem medo dos lobos? Sabe que hoje pode ser devorado por eles? Sabe que costumam morrer muitos homens nesta especialidade e que você pode ser um deles, hoje mesmo? — disparou, de rajada, em menos de um minuto.
E eu, intrigado com tudo aquilo, lá fui disfarçando como pude o nervosismo, respondendo-lhe a todas as questões o mais serenamente que me foi possível. Uma vez ali chegado, ao dobrar a esquina, ainda pude descortinar, por entre a escuridão, a uns escassos dois ou três metros de mim, o vulto de um camarada, de olhos vendados e mãos atadas atrás das costas, que ia sendo empurrado por um graduado, sobre umas botijas de gás que se encontravam tombadas no chão e que, obviamente, o faziam tropeçar e cair. Tive, assim, à socapa dos instrutores e a seu nítido contragosto, a oportunidade de antever uma pitadinha do que me estava reservado para o momento seguinte. Efetivamente, num ápice, dois indivíduos que não pude identificar, emergindo do escuro, agarraram-me, e enquanto um, que me abordou pela frente, me tapava os olhos com uma venda, o outro, por detrás, atava-me as mãos com um cordel de sisal. Concomitantemente, um deles, que creio ter sido um dos monitores do meu grupo de combate, o Gonçalves, um cabo miliciano cuja voz tipicamente gutural a tornava inconfundível e, por isso, facilmente identificável, agora intencionalmente mais cavernosa e assustadora, perguntou-me se trazia dinheiro comigo, fazendo-me uma revista sumária ao vestuário e deixando-me uma das calças, que usavam um elástico para se ajustarem ao cano da bota, subida, aí pelo meio da perna, exposta ao flagelo do frio da noite. Tendo-lhe respondido negativamente, foi desfiando todo um rosário de perguntas, em tudo idênticas às que o alferes já havia feito ao longo do percurso até ali. Findas aquelas operações, fui conduzido, seguro por um braço, e aos empurrões pelas costas, já que, nada podendo ver, tinha de tatear cuidadosamente o solo com os pés, até à retaguarda de um camião militar. Proferindo todo aquele chorrilho de perguntas agoirentas com o óbvio objetivo de me aterrorizar, o cabo miliciano lá me ajudou a trepar para a dita viatura, onde já se encontravam outros camaradas meus, nas mesmas condições, sentando-me num dos cantos, lá ao fundo, junto à cabina. Pelo ruído da azáfama envolvente, pude perceber que havia por ali, prontos a arrancar, outros camiões já carregados de pessoal.
Instantes decorridos, as viaturas puseram-se finalmente em marcha.
— Para onde iremos nós? — foi a minha primeira pergunta, ingénua e instintivamente, aliás, como se isso tivesse alguma relevância para o que quer que estivesse para me acontecer. De toda a maneira, e quanto mais não fosse, sempre me satisfaria uma natural curiosidade que me advinha do facto de ter chegado a ver lá para as bandas da minha terra, em anos anteriores, efetivos desta unidade, em exercícios militares.
Sentados na carroçaria coberta por um oleado, e presumindo que quem connosco viajava seriam camaradas nossos, fomo-nos interrogando uns aos outros sobre o que nos iria acontecer, mas ninguém arriscava uma resposta. Entretanto, e porque o nó que me atava os pulsos não tivesse ficado lá muito apertado, fui tentando, tentando, até que, decorrido algum tempo, consegui desatá-lo e libertar as mãos, discretamente, não fosse o rouco monitor do meu grupo, que nos acompanhava e vigiava — percebi-o pela voz, mal a viagem se iniciou —aperceber-se da marosca. Então, com uma delas afastei um pouco a venda e com a outra a prega do oleado da viatura, permitindo-me espreitar para o exterior. Mas… nada! Não consegui reconhecer minimamente o percurso. Apenas escuridão e mato a bordejar a estrada. Voltei a reposicionar as mãos atrás das costas, simulando-as atadas. Transcorridos largos quilómetros, quiçá para cima de três dezenas, aí por volta da uma e meia da madrugada, os camiões que integravam a coluna foram começando a parar, para, de centena em centena de metros, calculámos nós, irem largando um de nós, na berma da estrada, vendado e algemado tal como havíamos sido carregados para a carroçaria. Como estratégia, mal suspeitámos do que estava para acontecer — segundo alguém que já tinha obtido alguma informação sobre as provas curriculares do curso e que fazia parte da carga —, combinámos que, aquele que fosse largado, gritaria ranger!, para que os outros pudessem aperceber-se da sua localização e acorrer em seu auxílio, em caso de necessidade. Apesar de juntos há escassos dias, eram já os primeiros sinais de solidariedade a manifestarem-se entre nós. E, efetivamente, à medida que o camião arrancava, depois de largado mais um instruendo — e refiro-me apenas aos instruendos, porquanto os cadetes, tanto quanto julgo saber, terão sido largados noutra zona —, o espaço passou a ser entrecruzado por gritos rasgando as trevas, a que respondiam outros e mais outros, sempre devolvidos pelo silêncio das montanhas, assim se assinalando a presença de cada um, para que quem se encontrasse pelas proximidades, acorresse em seu auxílio, ajudando-o, sobretudo, a desembaraçar-se do cordel que lhe atava as mãos.
Finalmente, eis que chegou a minha vez. Como eu fosse um dos últimos dois, talvez por isso, presumo, fomos largados juntos. Auxiliados a descer do camião pelos dois monitores do grupo, os dois cabos milicianos que nos acompanhavam — vim a sabê-lo, naquele momento —, perguntaram-nos se queríamos ajuda para nos desembaraçarmos do cordel. Agradeci-lhes a boa vontade e arrisquei a declinar a proposta, obviamente por desnecessária. A escuridão e o espesso manto de nevoeiro envolvente haviam sido meus cúmplices no desatar do nó sem que eles se tivessem apercebido.
Pude, então, constatar que estávamos no cimo de uma montanha, envoltos em neblina fria e húmida a trespassar-nos os ossos. Mais tarde, vim a saber tratar-se do local designado por Portas de Montemuro, situado no cimo da serra do mesmo nome, na estrada que liga Castro Daire a Cinfães. Aparentando uma certa cordialidade, aqueles dois graduados ofereceram-nos um cigarro a cada um. Como eu não fumava, agradeci a cortesia, mas, obviamente, não aceitei o tabaco. Mas, mesmo que fumasse, por certo não o teria aceitado, pois eu já havia chegado a um ponto em que tudo o que aparentemente de bom pudesse vir de cima me era fortemente suspeito. Tudo me soava a cinismo, o que, sinceramente, não era coisa que minimamente me agradasse.
De acordo com as instruções recebidas no momento do embarque, deveríamos, logo que nos desembaraçássemos dos cordéis e das vendas, regressar à companhia o mais depressa possível, mas sempre à corta-mato, estando sujeitos a severas sanções, se acaso fôssemos surpreendidos a transitar na estrada pelos jipes que iriam andar por ali a patrulhar todo o percurso.
Mal o camião abandonou o local, fizemos soar os nossos gritos, a que corresponderam os camaradas mais próximos, alguns dos quais já se haviam reunido junto de um chafariz ali existente, a comentar, jocosamente, os momentos de terror por que passara o que fora largado naquele preciso local. É que lhe fora dito que tivesse muito cuidado com qualquer passo que pudesse dar, pois encontrava-se junto de um perigosíssimo precipício, em que poderia cair e ficar sem conserto. Para tornar o quadro ainda mais dramático e aterrorizador, foi advertido de que aquele ruído de água a cair que se ouvia em fundo era o de uma cascata que ali existia, junto ao dito precipício. É claro que o homem para ali ficou, imóvel, completamente petrificado, aos gritos, à espera que alguém o viesse ajudar a desembaraçar-se da situação. E, afinal, não passava, ironicamente, de um lugar absolutamente plano, e a cascata não era mais do que o canto monótono e solitário da bica da água do chafariz precipitando-se na respetiva pia!
..................................................................................................................................
Pode ser uma imagem de texto
Luís Silva, Albertino Dias e 1 outra pessoa
1 comentário
Gosto
Comentar

terça-feira, 13 de abril de 2021

 PORQUE HOJE É O DIA DO BEIJO...

Há muitas espécies de beijo, desde o beijo apaixonado, aquele que embriaga, ao beijo de Judas, da traição.
Aquele que mais me seduz e, obviamente, me inspirou, é aquele que a seguir vai descrito.
O BEIJO
Deixemo-nos possuir, amor,
Por esta doce sensação.
Encosta o teu peito ao meu
E deixemo-nos levar pela emoção
Dos nossos lábios fundidos
Numa volúpia insana,
De amor sedenta,
Irresistível!
Oh, deliciosa sensação!
Este frémito que nos percorre o corpo
E nos inflama os sentidos
Deixa-nos completamente loucos
No silêncio dos gemidos
Que o beijo não consente.
Deixemo-nos embalar, amor,
Por esta inefável sinfonia sensorial
Que tanto, mas tanto, nos inebria!
Apertemos bem este nosso abraço!
Cinjamos os nossos corpos sedentos,
Para que entre nós não sobre espaço
Senão para nós!
Sente… sente, amor, o frenético pulsar
Do meu coração pelo teu enamorado!
Já nem sei se vivo
Ou se em ti mergulhei,
Em teu amor naufragado.
Gozemos intensamente este momento
Como se não houvesse amanhã!
Sente, amor, sente!
Sente como eu estou sentindo
Este sublime arrebatamento,
Este fascínio que tudo absorve
Qual pérola que se desenvolve
Na concha hermética do desejo.
Quero-te, amor, sem reservas,
Quero-te toda,
Mas mesmo toda,
Na sofreguidão deste beijo.
Miguel Henriques
#miguelhenriques53

In
“Para lá das nuvens há luar”

Imagem da WEB
Pode ser uma imagem de escultura
9
Pessoas alcançadas
2
Interações
1

domingo, 4 de abril de 2021

 Com os meus votos de Boas Festas!

VIAGEM AOS FINAIS DOS ANOS 60 DO SÉCULO PASSADO

A PÁSCOA DA MINHA INFÂNCIA BEIRÃ (Pinho, São Pedro do Sul, Viseu)
A Semana Santa, assim mesmo, com maiúsculas, era, na minha infância, anos sessenta do século passado – convenhamos que já lá vão uns anitos! – uma semana de verdadeiro luto.
Na verdade, o catolicismo, embora o Estado fosse oficialmente laico, marcava profundamente toda a quaresma, ou não começasse ela logo com aquela pungente, realista, mas pouco simpática, advertência da Quarta Feira de Cinzas: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar!”, no ato da imposição das cinzas na testa de cada cristão. A igreja e seus ministros vestiam-se quase sempre de púrpura, a cor da dor, da paixão. Porém, era especialmente na Semana Santa que o recolhimento, a tristeza, a angústia, a roçar a morbidez, perdoem-me a expressão, colhia o seu máximo significado. Isto no país rural, pelo menos, que era aquele em que então me situava. Ele eram os jejuns e as abstinências das sextas-feiras; era o ritual da Via-Sacra, onde a paixão e morte de Cristo, por vezes, dramatizadas, era repetido vezes sem conta; era a confissão e respetiva comunhão obrigatória, conforme preceituava a Santa Madre Igreja…
Depois, eis que chegava o Domingo de Ramos, um momento divertido para a ganapada que se entretinha cada um a desafiar o outro, numa espécie de bullying, dir-se-ia, nos dias de hoje, a ver qual deles levava o ramo de loureiro ou de alecrim — noutras paragens prevalecia o de oliveira — mais robusto ou mais enfeitado com uns quantos papos-secos, um pacotinho de meia dúzia de bolachas maria, um ou outro rebuçado e, eventualmente, uma laranjita, tudo pendente das suas ramificações. Tão divertido que a verdadeira “floresta”, por sinal, bem aromática e enfeitada, em que o espaço da igreja se transformava, com o seu farfalhar, mal deixava ouvir o sacerdote, muito menos vê-lo. Mas era assim que, simbolicamente, se celebrava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, sob um coro de hossanas e ramos de palma e oliveira flutuando no ar, onde iria passar-se dos carretos e expulsar os vendilhões do templo.
Passadas essas pontuais emoções, guardava-se o loureiro bento junto à chaminé da lareira, para a eventualidade de ter de defumar a casa, em dias de trovoada, a fim de afastar os raios, e dava-se, então, início à Semana Santa, a última da quarentena ou Quaresma. As festas e romarias literalmente banidas durante os quarenta dias quase geravam, especialmente na juventude, um verdadeiro estado depressivo. Chegada a Quinta Feira Santa, as emissões de rádio quase se silenciavam. Suspendiam a emissão de música ligeira, por exemplo, passando a difundir quase exclusivamente noticiários e música de câmara. A igreja passava a ser o destino diário de católico que se prezasse, onde a liturgia invariavelmente versava sobre os últimos passos e padecimentos até à morte e crucificação de “Jesus Cristo feito Homem, à nossa imagem e semelhança, para nos redimir dos nossos pecados”. E assim se mantinham até às zero horas do Domingo de Páscoa, o domingo seguinte, momento que punha termo ao velório e em que o mundo cristão exultava de alegria, com foguetório e tudo, pela ressurreição do Filho do Homem, mas em que, paradoxalmente, só a mãe é conhecida.
Bom, mas o que me levou a escrever este arrazoado não teve propriamente a ver com os rituais religiosos, que valem o que valem, segundo a crença e a fé religiosa de cada um, mas com a mudança que se operava em nossas casas, ou melhor, nas casas dos nossos pais, humildes agricultores, como era o caso. Com efeito, como a Sexta Feira Santa era Dia Santo de Guarda, não se podia, ou antes, não se devia trabalhar; pelo menos, no campo, como era o meu caso. E convenhamos que nada tinha a ver com a falta de energias para tal, resultante do jejum e da abstinência da carne, o que, não havendo dinheiro para comprar peixe, tornava, obviamente, a alimentação menos calórica, menos nutritiva. Era por ser dia de luto profundo. E era um dia de descanso tão sagrado, tão intenso, que nem “os passarinhos buliam dentro das suas cascas”, diziam os antigos, os nossos maiores. Porém, tal princípio enfermava duma exceção: não se trabalhava no campo, trabalhava-se na casa. Na verdade, era dia de limpezas profundas, as tradicionais barrelas. Havia que preparar a casa para a visita pascal, para condignamente receber Cristo ressuscitado, no próximo domingo. Baldes e baldes de água e sabão rosa davam novo rosto aos soalhos de madeira, muitas vezes já carcomida pelo caruncho e encardida com aquele lixo incrustado que se foi acumulando ao longo dum ano inteiro. De joelhos, com aquelas duras escovas de piaçaba, era um trabalho bem árduo para quem tinha de o fazer, normalmente as mulheres da casa. Os homens iam-lhes chegando os baldes da água e iam fazendo outras tarefas domésticas como, por exemplo, cuidar dos animais, adiantar as refeições, ir ao monte apanhar rosmaninho para pôr na entrada da casa a servir de tapete à comitiva do compasso ou visita pascal… O certo é que aquele ar lavado, ligeiramente colorido e bem cheiroso conferido pelo sabão já ajudava a mitigar um pouco todo aquele estado psicológico pesado e sombrio de velório, prenunciando a alegria que iria brotar ao terceiro dia.
Entretanto, aproveitava-se também para fazer as barrelas especialmente com os lençóis de linho que, para o efeito, eram colocados a estagiar durante uns dias, dentro de grandes recipientes de cortiça, sob camadas de cinza, até serem retirados, lavados no tanque ou na água do ribeiro, e posteriormente postos a corar ao sol.
O dia de Páscoa começava com a obrigatória ida à igreja, cada um com a melhor indumentária de que dispusesse, eventualmente estreando até alguma peça, para assistir à celebração da missa, após o que se regressava a casa, preparando-se a mesa, no centro da sala, com uma toalha e um pratinho com meia dúzia de amêndoas e o envelope com a côngrua, a ser levantado pelo juiz da igreja ou pelo sacristão que habitualmente acompanhavam o pároco; o primeiro com a cruz e o segundo com a sineta a anunciar a chegada e a caldeirinha da água-benta com que o presbítero aspergia a casa, saudando e, entre aleluias, dando a boa nova da ressurreição aos presentes perfilados para beijar a dita com aquele pungente busto de Cristo pregado, quando, afinal, o que se vinha anunciar era a sua ressurreição.
Lá fora, numa qualquer encruzilhada do lugar, soavam cânticos alusivos ao momento, de que recordo aquele que começava assim: “Já os passarinhos cantam/A ressurreição do Senhor… Aleluia! “
E eu, ganapo, lá ia assistindo a tudo isto, com mais ou menos devoção, mas, confesso-o, muito mais interessado em me cruzar com os meus padrinhos de batismo, na expetativa de poder vir a receber de folar os 10 (1$00) ou 25 tostões (2$50), quando a generosidade falava mais alto, com que me brindavam, quando não era aquele bolo típico coberto de açúcar e bem saboroso que doceiras da Ponte, São Pedro do Sul, vendiam no adro da igreja, à saída da missa.
Ermesinde, véspera do dia de Páscoa de 2021
Miguel Henriques

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

VIRTUAL VS REAL






Virtual vs Real,
                                por Miguel Henriques


Aqueles últimos dias haviam-nos passado ambos tomados por uma tão estranha quão doce ansiedade. O desejo de se poderem mirar olhos nos olhos, de se tocarem, de sentirem aquele toque de pele que faz vibrar de emoção qualquer coração minimamente apaixonado, de conhecerem o tom das suas vozes, segredo que deliberadamente foram reservando para aquele encontro ao vivo, de conhecerem o cheiro recíproco, enfim, tudo isto lhes vinha tirando literalmente o sono. E aquela persistente curiosidade, que não cessava de lhes minar a mente, sobre qual seria a reacção do outro ao cruzarem os seus olhares pela primeira vez, então é que, qual bola de neve, não parava de lhes potenciar a ansiedade. Iriam enrubescer, ficar completamente apáticos, ao ponto de as palavras lhes ficarem entaladas na garganta ressequida pelo nervosismo, ou, pelo contrário, tudo fluiria com a química naturalidade de duas almas gémeas que, pese embora ansiosas, há muito anseiam por restabelecer a sua originária unicidade?
Conheceram-se pela net, sem câmara, nas pontas dos dedos que diariamente acariciavam o teclado como se do rosto do outro se tratasse. Apenas uma fotografia supostamente actualizada de cada um, a utilizada no perfil da sua página na rede social, descarregada para o ambiente de trabalho, lhes servia de refrigério para as suas angústias e emoções, já que o recurso ao telefone foi, desde o início, espontânea e intencionalmente posto de parte por ambos. Era essa foto bem exposta e ampliada no ecrã, cujo sorriso contagiante tocava indelevelmente o outro, que imprimia o cunho e o ritmo das conversas que iam fluindo pelos dedos recíprocos no matraquear dos teclados. E a verdade é que, nessa estática virtualidade, o sonho se coloria e enfunava à medida que os dias iam passando.
Com efeito, as perguntas eram mais do que muitas, e o momento tão almejado parecia nunca mais chegar, como se a sua ansiedade tivesse de escalar aquele íngreme calendário que parecia ter parado no tempo, travado por um qualquer génio do mal, avesso ao amor.
Eis que, finalmente, esse dia chegou. Luana, no sentido de se sentir mais segura e confortável, havia convidado uma amiga para a acompanhar naquela que já vinha considerando a mais fascinante aventura da sua vida, pese embora isso fosse um segredo que apenas para si guardara. Uma amiga a quem, conhecendo-a há muito, não passou despercebido o estranho nervosismo que de si se apoderara, mas que soubera conter a curiosidade, esperando para ver, pois a amizade não pode ser beliscada pelo simples facto de cada um pretender guardar exclusivamente para si um simples núcleo de privacidade. O rosto, os olhos, as incontornáveis janelas do edifício humano, raramente conseguem esconder o que nos vai no coração… e na alma. No entanto, não quis estragar o momento da amiga com perguntas inoportunas ou menos pertinentes que pudessem denunciar uma qualquer tentativa de devassa de um possível segredo íntimo que aquela eventualmente guardasse e quisesse reservar para si e para os seus botões.
Enquanto isso, Mel Igu, personagem principal no evento que iria ter lugar, aguardava, nervosamente, no exterior do auditório, a aparição daquela que nos últimos tempos lhe vinha tomando conta de todos os seus instantes, absorvendo por completo os seus pensamentos, dominando integralmente as suas emoções. Desde o dia em que pela primeira vez, no silêncio dos seus aposentos, os seus dedos cúmplices trocaram declarações de amor recíproco, os dias haviam passado a ser bons ou maus conforme o estado de humor do seu relacionamento. Aquele constante correr para o computador, na expectativa de “encontrar” o outro, para com ele compartilhar o seu dia-a-dia, tornara-se já não só uma simples rotina, mas uma necessidade premente para o anímico bem-estar de qualquer deles. Um dia-a-dia partilhado nas pontas dos dedos, sem imagem nem som, apenas o do estrepitoso bater do teclado ao ritmo das emoções.
Escassos minutos antes da hora aprazada para o início do evento, numa altura em que os olhos ansiosos de Mel Igu varriam o horizonte, eis que vislumbra Luana a aproximar-se, passo estugado, mas seguro, acompanhada pela amiga, também esta uma velha amiga e conhecida daquele, mas que já não via desde a infância. Escusado será dizer que os olhares de Luana e Mel Igu, emoldurados por um lindo e enternecedor sorriso, ficaram presos um no outro, como que por hipnose, até ao momento em que os seus rostos se tocaram pela primeira vez, naquele ósculo bilateral, delicado, elegante, momento em que pareceu terem-se fechado para saborearem até à exaustão toda a magia do encontro. Só a aproximação da amiga para o cumprimento da praxe teve o condão de quebrar aquele encanto, a que, por cortesia, ele teve de anuir. Mas a hora da conferência aproximava-se e, noblesse oblige, a plateia, bem como a pontualidade que sempre fora apanágio do orador, reclamavam a sua presença imediata, pelo que só no final do evento poderiam dar sequência àquele desfilar de emoções que os assaltara.
Encerrada a sessão, eram horas de jantar, e nada melhor do que uma refeição a dois, em torno duma mesa, num recatado restaurante das redondezas, onde os olhares alheios não pudessem quebrar ou sequer perturbar o encanto do momento.
- Adorei aquela tua dissertação, Mel Igu, sobre o amor conjugal e toda a problemática que os anos de casamento acarretam para a convivência pacífica e harmoniosa do casal!
- Obrigado, Luana! Como referi e toda a gente sabe, na vida do casal, nem tudo são rosas. É natural que, mais cedo ou mais tarde, vá surgindo alguma conflitualidade. A questão está em saber, ser capaz de avaliar aquilo por que vale a pena lutar, aquilo que é viável e pode contribuir para a saudável estabilização e consolidação dos afectos, e aquilo que, a manter-se, apenas vai contribuindo para o desgaste da relação e dos seus protagonistas, aumentando a sua inevitável conflitualidade no palco da tragédia conjugal. E, em face disso, como é óbvio, há um momento em que ambos têm de reflectir e, se necessário for, dar um murro na mesa, dizer basta, partindo para outra, como se costuma dizer, sem pudores nem preconceitos, sejam eles de que natureza forem. A vida, em meu entender, deve celebrar o amor!
- És um hedonista, Mel Igu, já deu para perceber!
- Não tenhas dúvidas, Luana! Para mim, a vida só faz sentido enquanto ela nos conseguir proporcionar algum prazer. A dor, o sofrimento, a doença, são meros degraus na íngreme escadaria, mais ou menos longa, que desce para a morte. É a natureza das coisas a ditar o seu curso! Tudo o que o Homem tem feito é contrariá-la com recurso à medicina e a outros ramos da ciência. E, como disse, quer na saúde física, quer na psíquica ou sentimental, quando a felicidade, o prazer, passaram a ser meras miragens, insistir na caminhada não é mais do que prolongar a agonia.
- Bom, mudemos de assunto! E que tal brindarmos ao nosso encontro? Ou será que é reencontro?!
- Seja aquilo que for, Luana, o que importa é que estejamos assim, bem juntinhos, de olhos nos olhos, frente a frente, mãos firmes e dedos solidamente entrelaçados nos braços estendidos sobre a mesa. Brindemos!
- Que lindo! – retorquiu Luana, embevecida – Brindemos!
E o brinde foi selado com um longo beijo, um beijo com sabor, um sabor real, sentido no entrecruzar das línguas sôfregas. O mundo fechou-se em seu redor, naquele abraço absorvente que teve o condão de lhes incendiar a libido. As palavras saíram de cena, dando lugar aos sentidos, os dedos abandonaram a solidão do teclado, para se ocuparem com coisas bem mais reais e deliciosas. O virtual acabara de representar o seu papel.
- O toque, Mel Igu! Como eu sentia falta disto! Nada pode suprir a falta do outro, quando o amor os une e nele se plasmam todos os seus sonhos e emoções. Nenhuma virtualidade, por mais cor-de-rosa que se pinte, nos preenche tanto como um simples entrelaçar dos dedos!
- Aproveitemos o momento, Luana! Que ele venha a ser a sementeira afável e generosa que, no futuro, nos venha a proporcionar o melhor dos frutos, para que, se possível, de mãos dadas, neste enlevo, consigamos sulcar a vida reduzindo ao mínimo os escolhos que pelo caminho nos forem surgindo.
E de novo se ergueram os copos: «chim-chim!»
- À nossa! – proclamaram ambos, em uníssono.



(In “A Arte Pela Escrita Oito – Coletânea de Prosa e Poesia”, organização e edição do sítio Escritartes e Mosaico de Palavras Editora, 2015, Porto, pág. 323 a 326)

segunda-feira, 4 de novembro de 2019






OUTONO


Chegou o outono,
Casmurro, sorumbático,
Com aquele incontornável
Bafiento, soturno cheiro a morte.
Desculpem-me aqueles que o apreciam,
Mas, sinceramente,
Eu detesto-o,
Ou melhor, abomino-o!
Traz-me o desconfortável frio,
Leva-me o delicioso calor,
Congela-me, inclemente, a alma,
Num glaciar de infindável nostalgia.
Despe-me as árvores,
Desnuda-me a natureza…
E que lindas que elas estavam!
Como é triste aquele colorido de morte
Das folhas arrancadas pelo vento
Como pedaços de vida
À vida arrebatados,
Pairando, moribundas, no ar,
Num sonambulismo de morte,
Até jazerem, inertes, no chão,
Espezinhadas por tudo o que se move.
“Ah, mas são lindas,
Multicores,
Nas árvores ou no chão,
São telas magistrais,
Obras-primas, divinais,
Pura arte de geniais pintores,
Em seus inefáveis momentos de inspiração!”
Não! E não! E não!
Para mim são o prelúdio da morte,
O fim do ciclo da vida,
A não merecer sequer comiseração.
A inevitável corrida aos têxteis
Priva-me daquela feminina sensualidade
Que o impudico calor estival,
Generosamente me oferece.
Ah, que regalo para os olhos!
E que bálsamo para a alma!
Outono é prenúncio de inverno,
Daquele monótono cinzento,
Lutuoso, húmido e frio,
Em que busco um pouco de prazer
No sono embalado
Pelo monótono rufar da chuva
Sobre a impávida cobertura.
Hmm! Que bem me sinto no aconchego do lar,
Quando, lá fora, o temporal agreste
Açoita, impiedosamente, os viventes.
A natureza tinge-se de luto.
Silenciam-se as aves, os insetos,
Adia-se a vida,
Letárgica, preterida…
Não! Não gosto do outono
E, creiam, odeio o inverno.
A primavera é linda,
Sim, de acordo,
Não digo que não!
Renova-se a natureza,
Outros sons, outras cores,
Outro perfume, outra beleza,
Brilha o sol, aquece o chão…
Mas, pudesse o tempo,
A meu contento,
Ter uma só estação,
Essa seria, indubitavelmente,
O meu tão voluptuoso verão.


Ermesinde, 4 de novembro de 2019

Autor:
Miguel Henriques




quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril

                          25 de Abril



O dia em que o país acordou dum longo pesadelo,
entoando, em uníssono, audaciosas loas à liberdade.
O dia em que o país deixou de ser de alguns,
para passar a ser de todos,
porque todos a ele pertencíamos.
O país que deixou de ser apenas masculino,
para passar a ser de todos,
sem distinção de sexos, credos, raças,
cores, etnias...
O dia em que choveram cravos
brotando nos canos das espingardas
por onde dantes jorrava sangue
da mesma cor.
O dia em que se romperam as grilhetas ao pensamento
e a mordaça à expressão.
Por tudo isto e muito mais,
pois que viva a revolução!